Publicado em 5 de novembro de 2024 às 16:02
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Os sete conselheiros do TCE (Tribunal de Contas do Estado) de Roraima receberam na folha de pagamento de setembro o valor total de R$ 8 milhões a título de remuneração e "proventos diversos", o que incluiu pagamentos de R$ 1,4 milhão a R$ 1,8 milhão a quatro deles.>
Atualmente, o salário formal de um conselheiro do TCE-RR é de R$ 39,7 mil.>
O teto salarial do funcionalismo é de R$ 44 mil, valor da remuneração de um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).>
De acordo com o portal da Transparência do próprio tribunal, os conselheiros vêm recebendo há meses pagamentos bem acima dos valores formais de remuneração.>
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Em setembro, o presidente da corte, Célio Rodrigues Wanderley, foi o recordista, com R$ 1,81 milhão bruto — R$ 39,7 mil de remuneração e R$ 1,77 milhão em proventos diversos.>
A conselheira Cilene Lago Salomão veio logo a seguir, com R$ 1,80 milhão — também R$ 39,7 mil de remuneração e R$ 1,77 milhão em proventos diversos.>
Só o valor desembolsado pelo tribunal no mês de setembro para os sete conselheiros seria suficiente para pagar o salário regular de todos eles por mais de dois anos.>
Os tribunais de contas estão disciplinados na Constituição como órgãos auxiliares do Poder Legislativo na "fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial" do Poder Executivo, observados, entre outros pontos, a legalidade, legitimidade e economicidade.>
Em nota, o Tribunal de Contas do Estado de Roraima enumerou uma série de penduricalhos (benefícios que turbinam os salários dos servidores públicos) e pagamentos retroativos como justificativa para a milionária folha de pagamento de setembro.>
Em especial, pagamentos retroativos de conversão em dinheiro de licenças por acúmulo de função, além de abono por permanência na atividade pública mesmo após reunidas condições para aposentadoria.>
A Lei Orgânica do Tribunal de Contas do Estado de Roraima é de 1994, mas, no decorrer dos anos, várias leis aprovadas pela Assembleia Legislativa do estado ampliaram os benefícios dos integrantes do órgão.>
Em 2014, por exemplo, projeto incluiu na lei três meses de licença-prêmio remunerada a cada cinco anos.>
Em 2022, foi a vez de projeto incluir na lei o direito aos membros do TCE-RR de licença por acúmulo de jurisdição de contas (atividades de julgamento e de fiscalização das contas que tramitam na corte) e acervo processual (total de processos ou procedimentos distribuídos e vinculados a um relator), com a delegação ao próprio tribunal de competência para estabelecer a forma de compensação da licença.>
Com efeito, os conselheiros se reuniram depois e definiram, entre outros pontos, que as licenças podem ser convertidas em dinheiro e que os membros do TCE-RR que preenchiam as exigências de janeiro de 2015 a dezembro de 2021 também teriam direito à compensação.>
Os conselheiros previram ainda que as folgas compensatórias apuradas na ocasião seriam indenizadas "com o objetivo de assegurar a eficiência e evitar a descontinuidade dos serviços públicos prestados".>
Em nota, o TCE-RR afirmou que "todos os pagamentos foram precedidos da devida análise técnica de impacto orçamentário-financeiro, em conformidade com as regras previstas na Lei de Responsabilidade Fiscal".>
Em relação aos pagamentos feitos "de forma diferenciada" ao presidente da corte e à conselheira Cilene, cita artigo da Constituição sobre abono a servidores que tenham completado as exigências para aposentadoria e permaneçam em atividade.>
Segundo o órgão, o valor inclui abonos a que eles fazem jus aos últimos cinco anos e que não tinham sido pagos "em virtude de limitações orçamentárias".>
"Nesse sentido, o TCE-RR entende que a transparência é fundamental para fortalecer a confiança da população nas instituições, e, por isso, todas as suas decisões e pagamentos são realizados com rigor técnico jurídico e em conformidade com a legislação vigente, respeitando, inclusive, a vinculação constitucional e a paridade remuneratória existente com os membros da magistratura.">
O tribunal encerra a nota afirmando que "é com esse espírito que se renova o compromisso de promover práticas que assegurem a visibilidade" de suas ações, "sempre em busca de uma administração pública eficiente e íntegra, norteadas pelos princípios constitucionais".>
Em entrevista à Folha, o professor associado da Fundação Dom Cabral Bruno Carazza, que é autor do livro "O País dos Privilégios: os novos e velhos donos do poder", calcula que cerca de R$ 20 bilhões em penduricalhos escapam do teto remuneratório de R$ 44 mil do funcionalismo público.>
Em sua avaliação, o projeto de lei que tramita no Congresso Nacional com o objetivo de restringir os supersalários no setor público será inócuo no combate a privilégios e na redução das despesas do governo caso o Senado não corte exceções que hoje constam na proposta.>
"O céu é o limite", diz Carazza. Ele estimou em R$ 8 bilhões as verbas que ficam fora do teto salarial no Judiciário. "Quando a gente olha no Judiciário e no Ministério Público, aí a criatividade não tem limites.">
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