Publicado em 1 de dezembro de 2023 às 09:47
Em discurso na sessão de abertura da COP28, na manhã desta sexta (1º), em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou o dinheiro dispensado em guerras e a falta de compromisso dos países em seguir os protocolos climáticos acertados anteriormente.>
"É preciso resgatar a crença no multilateralismo. É inexplicável que a ONU, apesar de seus esforços, se mostre incapaz de manter a paz, simplesmente porque alguns dos seus membros lucram com a guerra", disse ele na conferência do clima da ONU, em Dubai.>
"É lamentável que acordos como o Protocolo de Kyoto (1997) ou os Acordos de Paris (2015) não sejam implementados.">
Lula deve fazer um segundo discurso na COP28 nesta manhã, durante a plenária dos líderes. A agenda do presidente inclui também uma série de reuniões bilaterais, entre outras atividades. Ao todo, estão previstos 26 compromissos num intervalo de 32 horas.>
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O plano de ação para limitar o aquecimento global do Acordo de Paris inclui manter o aumento da temperatura média mundial abaixo dos 2°C em relação aos níveis pré-industriais e em tentar limitar o aumento a 1,5°C.>
Já o Protocolo de Kyoto foi o primeiro tratado internacional para controle da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Entre suas metas, estabelecia a redução de 5,2% na emissão de poluentes em relação a 1990, principalmente por parte dos países industrializados.>
Lula cutucou seus pares dos países ricos ao questionar as reais intenções em relação ao uso de dinheiro. "Quantos líderes mundiais estão de fato comprometidos em salvar o planeta? Somente no ano passado, o mundo gastou mais de US$ 2 trilhões e 224 bilhões de dólares em armas", afirmou. >
"Quantia que poderia ser investida no combate à fome e no enfrentamento da mudança climática. Quantas toneladas de carbono são emitidas pelos mísseis que cruzam o céu e desabam sobre civis inocentes, sobretudo crianças e mulheres famintas?", continuou.>
O brasileiro mencionou ainda a necessidade de "trabalhar por uma economia menos dependente de combustíveis fósseis". Nesta quinta-feira (30), porém, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, sinalizou o interesse do Brasil em aceitar convite para ingressar na Opep+, grupo que funciona como um cartel dos petróleos de petróleo.>
Para especialistas em clima, a adesão ao grupo seria um contrassenso com a imagem de potência ambiental que o Brasil procura construir. Na quarta (29), em visita a Riad, Lula disse que o Brasil vai ser "a Arábia Saudita da energia verde".>
No discurso na manhã desta sexta-feira, Lula destacou que a desigualdade deveria ser combatida em primeiro lugar. "A conta da mudança climática não é a mesma para todos. E chegou primeiro para as populações mais pobres. O 1% mais rico do planeta emite o mesmo volume de carbono que 66% da população mundial", afirmou.>
"Trabalhadores do campo, que têm suas lavouras de subsistência devastadas pela seca, e já não podem alimentar suas famílias. Moradores das periferias das grandes cidades, que perdem o pouco que têm quando a enchente arrasta tudo: casas, móveis, animais de estimação e seus próprios filhos.">
Lula também afirmou que "a injustiça que penaliza as gerações mais jovens é apenas uma das faces das desigualdades que nos afligem". Para ele, "o mundo naturalizou disparidades inaceitáveis de renda, gênero e raça" e "não é possível enfrentar a mudança do clima sem combater as desigualdades.">
Lula iniciou o discurso citando a queniana Wangari Maathai, vencedora do prêmio Nobel da Paz em 2004. "Uma mulher africana sintetizou bem o dilema da humanidade em sua relação com a natureza. Disse ela: 'A geração que destrói o meio ambiente não é a geração que paga o preço'.">
A cerimônia de abertura teve também discursos do secretário-geral da ONU, António Guterres, e do rei Charles 3º do Reino Unido, que falou logo antes de Lula.>
Após o presidente do Brasil, houve fala da também brasileira Isabel Prestes da Fonseca, liderança indígena do povo munduruku que é cofundadora e diretora ambiental do Instituto Zag, dedicado ao reflorestamento.>
A necessidade de proteger as araucárias e preservar o conhecimento tradicional dos povos indígenas foi o ponto central do discurso de Fonseca, que vive na Terra Indígena Xokleng Laklãnõ, em Santa Catarina. O processo de demarcação dessa terra foi o alvo da discussão do marco temporal de terras indígenas no STF (Supremo Tribunal Federal).>
LEIA A ÍNTEGRA DO DISCURSO DE LULA >
"Uma mulher africana, a queniana Wangari Maathai, vencedora do prêmio Nobel da Paz, sintetizou bem o dilema da humanidade em sua relação com a natureza. >
Disse ela: "A geração que destrói o meio ambiente não é a geração que paga o preço". >
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alertou que temos somente até o final desta década para evitar que a temperatura global ultrapasse um grau e meio acima dos níveis pré-industriais.>
2023 já é o ano mais quente dos últimos 125 mil anos.>
A humanidade sofre com secas, enchentes e ondas de calor cada vez mais extremas e frequentes.>
No Norte do Brasil, a Amazônia amarga uma das mais trágicas secas de sua história. No Sul, tempestades e ciclones deixam um rastro inédito de destruição e morte. >
A ciência e a realidade nos mostram que desta vez a conta chegou antes. >
O planeta já não espera para cobrar da próxima geração. >
O planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos. >
De metas de redução de emissão de carbono negligenciadas. >
Do auxílio financeiro aos países pobres que não chega. >
De discursos eloquentes e vazios.>
Precisamos de atitudes concretas.>
Quantos líderes mundiais estão de fato comprometidos em salvar o planeta? >
Somente no ano passado, o mundo gastou mais de US$ 2 trilhões e 224 milhões de dólares em armas. Quantia que poderia ser investida no combate à fome e no enfrentamento da mudança climática. >
Quantas toneladas de carbono são emitidas pelos mísseis que cruzam o céu e desabam sobre civis inocentes, sobretudo criançaz e mulheres famintas? >
A conta da mudança climática não é a mesma para todos. E chegou primeiro para as populações mais pobres.>
O 1% mais rico do planeta emite o mesmo volume de carbono que 66% da população mundial. >
Trabalhadores do campo, que têm suas lavouras de subsistência devastadas pela seca, e já não podem alimentar suas famílias.>
Moradores das periferias das grandes cidades, que perdem o pouco que têm quando a enchente arrasta tudo: casas, móveis, animais de estimação e seus próprios filhos. >
A injustiça que penaliza as gerações mais jovens é apenas uma das faces das desigualdades que nos afligem.>
O mundo naturalizou disparidades inaceitáveis de renda, gênero e raça. >
Não é possível enfrentar a mudança do clima sem combater as desigualdades.>
Quem passa fome tem sua existência aprisionada na dor do presente. R torna-se incapaz de pensar no amanhã. >
Reduzir vulnerabilidades socioeconômicas significa construir resiliência frente a eventos extremos. >
Significa também ter condições de redirecionar esforços para a luta contra o aquecimento global.>
Em 2009, quando participei da COP15, em Copenhague, a arquitetura da Convenção do Clima estava à beira do colapso. >
As negociações fracassaram e foi preciso um grande esforço para recuperar a confiança e chegar ao Acordo de Paris, em 2015.>
Ao retornar à presidência do Brasil, constato que estamos, hoje, em situação semelhante. >
O não cumprimento dos compromissos assumidos corrói a credibilidade do regime. >
É preciso resgatar a crença no multilateralismo.>
É inexplicável que a ONU, apesar de seus esforços, se mostre incapaz de manter a paz, simplesmente porque alguns dos seus membros lucram com a guerra. >
É lamentável que acordos como o Protocolo de Kyoto (1997) ou os Acordos de Paris (2015) não sejam implementados. >
Governantes não podem se eximir de suas responsabilidades.>
Nenhum país resolverá seus problemas sozinho. Estamos todos obrigados a atuar juntos além de nossas fronteiras. >
O Brasil está disposto a liderar pelo exemplo.>
Ajustamos nossas metas climáticas, que são hoje mais ambiciosas do que as de muitos países desenvolvidos.>
Reduzimos drasticamente o desmatamento na Amazônia e vamos zerá-lo até 2030.>
Formulamos um plano de transformação ecológica, para promover a industrialização verde, a agricultura de baixo carbono e a bioeconomia. >
Forjamos uma visão comum com os países amazônicos e criamos pontes com outros países detentores de florestas tropicais.>
O mundo já está convencido do potencial das energias renováveis. >
É hora de enfrentar o debate sobre o ritmo lento da descarbonização do planeta e trabalhar por uma economia menos dependente de combustíveis fósseis.>
Temos de fazê-lo de forma urgente e justa. >
Vamos trabalhar de forma construtiva, com todos os países, para pavimentar o caminho entre esta COP28 e a COP30, que sediaremos no coração da Amazônia. >
Não existem dois planetas Terra. Somos uma única espécie, chamada Humanidade. >
Todos almejamos tornar o mundo capaz de acolher com dignidade a totalidade de seus habitantes - e não apenas uma minoria privilegiada.>
Como nos convida o Papa Francisco na Encíclica "Todos Irmãos", precisamos conviver na fraternidade. >
Muito obrigado.">
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