Publicado em 13 de abril de 2023 às 12:00
Atingidos pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG) correm o risco de perder no mínimo parte do acompanhamento psicológico, social e econômico ao qual passaram a ter direito depois do acordo de reparação assinado pela mineradora em 2021.>
A ameaça vem do corte de quase 50% nos recursos previstos para o primeiro semestre de 2023 para a atuação do Instituto Guaicuy, da Aedas (Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social) e do Nacab (Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens).>
As três entidades são as responsáveis por esse acompanhamento junto à população do total de 27 municípios impactados pela lama que vazou da barragem em 2019. O número de atingidos em acompanhamento ultrapassa 30 mil pessoas.>
Os responsáveis pela administração dos recursos afirmam haver necessidade de redução no ritmo das despesas. Do montante de R$ 700 milhões previstos para dez anos, R$ 150 milhões (21%) já foram gastos em pouco mais de dois anos, segundo afirmam.>
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O trabalho de Guaicuy, Aedas e Nacab, que são chamadas de assessorias técnicas independentes (ATIs), consiste em contratar e colocar em campo agentes —assistentes sociais, psicólogos, ambientalistas— para fazerem o acompanhamento das condições de saúde e também socioeconômicas dos atingidos.>
É apurado, por exemplo, se houve surgimento de doenças que podem ter relação com a lama.>
Os agentes acompanham ainda o impacto econômico da tragédia nas famílias cujos integrantes tiveram que mudar de profissão, como ocorreu com pescadores.>
Coube também aos agentes identificar poços artesianos que eram usados pelas famílias atingidas e que, depois da tragédia, ficaram inacessíveis.>
Os contratados não fazem atendimento, mas apenas acompanhamento. Depois de identificados os problemas, as apurações são encaminhadas para as prefeituras e para as próprias instituições encarregadas da administração dos recursos que bancam o acompanhamento.>
A partir daí, é definido se os atingidos terão que ser enquadrados em programas sociais de saúde e renda, além dos que já possam fazer parte.>
Segundo dados repassados pelo Instituto Guaicuy, os recursos previamente acertados para o primeiro semestre de 2023 para as três entidades era de R$ 58,4 milhões. Com o corte, o valor ficou em R$ 30,2 milhões, redução de cerca 48,4%.>
Pelo acordo, fechado com o estado e a União, os recursos são administrados pelo Ministério Público de Minas Gerais, MPF (Ministério Público Federal) e Defensoria Pública, que anunciaram a redução às entidades no mês passado.>
Os valores estão dentro de um total de R$ 37,6 bilhões previstos no acordo para serem aplicados em reparação pela tragédia. A maior parte dos recursos repassados para as três entidades é utilizada para o pagamento dessas equipes de atendimento.>
Os 27 municípios ficam ao longo da calha do rio Paraopeba, poluído pela lama de rejeito de minério de ferro, em sua extensão entre Brumadinho, na Grande Belo Horizonte, e a barragem de Três Marias, na região central do estado.>
O diretor do Instituto Guaicuy, Marcus Vinícius Polignano, afirma que, de imediato, o corte nos recursos implicará na redução de 190 para 140 no número de agentes que fazem o acompanhamento da população nas cidades sob responsabilidade da entidade.>
"É um acompanhamento para garantir que a reparação seja feita. São pessoas que tiveram o modo de vida comprometido. Muitos perderam suas condições de subsistência", afirma Polignano.>
No Nacab a redução do pessoal será ainda maior, passando de 110 para 10 agentes, segundo a reportagem apurou.>
"O Nacab vê com preocupação o corte orçamentário apresentado, uma vez que afetará o direito das pessoas atingidas, considerando o forte comprometimento das ações da ATI devido à drástica redução do número de profissionais que o corte impõe", diz a entidade, em nota.>
A Aedas não retornou contato feito pela reportagem. A ATI atua com 200 agentes para acompanhamentos dos atingidos.>
Os Ministérios Públicos e a Defensoria Pública de Minas Gerais afirmam que o corte tem o objetivo de reduzir o ritmo de gastos para que seja possível cumprir o prazo de execução da reparação previsto no acordo fechado com a mineradora, que é de dez anos.>
"Informamos que os orçamentos das assessorias técnicas independentes envolvidas no cumprimento do acordo judicial de reparação de Brumadinho foram ajustados, provisoriamente, a fim de compatibilizá-los com as estimativas de gastos com outras estruturas de apoio necessárias ao cumprimento do acordo", afirmam, em nota, o Ministério Público estadual e a Defensoria Pública.>
"Essas estruturas incluem, entre outros custos, as auditorias socioeconômicas, financeira, inclusive a auditoria sobre o trabalho das próprias assessorias técnicas", diz o posicionamento.>
"Além disso, há a necessidade de analisar planos de trabalho e gastos propostos para as atividades das assessorias na atual fase de cumprimento do acordo, já que os custos com a estrutura de apoio estão limitados a R$ 700 milhões, para utilização no período de dez anos, e os recursos excedentes retornam para a reparação das pessoas atingidas, circunstância que exige cautela na realização dos gastos", pontua a nota.>
O procurador Carlos Bruno Ferreira da Silva, coordenador da força-tarefa do MPF no caso Brumadinho, afirma que os gastos estavam altos e foi necessário um movimento para limitá-los.>
Por outro lado, segundo o procurador, uma ação movida na Justiça pelos Ministérios Públicos e a Defensoria tenta fazer com que parte da reparação, a que se refere especificamente a danos econômicos aos atingidos, seja pago pela Vale, e não com o dinheiro do acordo fechado com a mineradora, conforme ocorre hoje.>
"Se a decisão for favorável, os recursos para as ATIs serão maiores do que são atualmente", afirma o procurador.>
A barragem de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, rompeu em 25 de janeiro de 2019, provocando a morte de 270 pessoas, entre funcionários da mineradora, terceirizados e hóspedes de uma pousada na região.>
A lama de rejeitos de minério de ferro que desceu da represa destruiu florestas, matou animais e poluiu o Rio Paraopeba em curso desde Brumadinho até Felixlândia, onde deságua na represa de Três Marias.>
Das 270 vítimas da tragédia, três corpos ainda não foram localizados. A última identificação pela Polícia Civil de Minas Gerais ocorreu em 20 de dezembro de 2022, a da funcionária da Vale Cristiane Antunes Campos, que tinha 35 anos à época e era supervisora de mina.>
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