Publicado em 11 de agosto de 2022 às 20:19
- Atualizado há 3 anos
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a chamar o manifesto pela democracia lido nesta quinta-feira (11) de "cartinha" e retomou os ataques ao ex-presidente Lula (PT) e aos demais signatários do texto.>
O mandatário disse que a carta não servirá de "passaporte de bom moço" e criticou artistas que assinaram o manifesto.>
A estratégia do entorno do presidente para fazer frente às adesões aos textos pró-democracia é dobrar a aposta nos atos bolsonaristas previstos para o 7 de Setembro.>
A expectativa é conseguir no Dia da Independência uma forte adesão de apoiadores nas ruas e, dessa forma, mostrar força por parte do mandatário. Bolsonaro e aliados intensificaram na última semana as convocações para as manifestações do feriado.>
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"A Carta da Democracia é a Constituição. Qualquer outra é redundante", disse o ministro Ciro Nogueira (Casa Civil) ao jornal Folha de S.Paulo.>
Aliados do presidente sabem que o saldo do dia é negativo para o mandatário, mas a avaliação é a de que os eventos desta quinta não têm efeito eleitoral. Eles dizem que os atos dialogam em boa parte com um público que já não votaria em Bolsonaro e que deve apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).>
Dão como exemplo a presença de movimentos sociais e entidades sindicais nas manifestações desta quinta. Um dos principais argumentos para tachar a carta pró-democracia de movimento de esquerda é o fato de o próprio Lula ter assinado o documento.>
Ele não foi o único presidenciável ou ex-presidente a assinar. A senadora Simone Tebet (MDB-MS) e Ciro Gomes (PDT) também endossaram o texto.>
Em sua live semanal nas redes sociais, Bolsonaro lembrou que a CUT (Central Única dos Trabalhadores), aliada do PT subscreveu o texto. O presidente disse que a entidade "está com saudade" do imposto sindical obrigatório. Sobre o apoio de artistas ao ato, afirmou eles estão interessados no retorno da Lei Rouanet como funcionava antes de seu governo.>
"Não tenho prova disso, mas com toda certeza acertaram com o cara deles a volta Lei Rouanet da forma que sempre existiu. No nosso governo, botamos freio nisso. Até 2018 esses figurões que viviam elogiando o governo da época podiam pegar até R$ 10 milhões por ano.">
Com um exemplar da Constituição na mão, o mandatário afirmou ser contraditório os petistas subscreverem a carta deste ano enquanto se negaram a assinar a Carta de 1988, que até hoje baliza as leis do país e consolidou a democracia no Brasil.>
"Já que o símbolo máximo do PT assinou a carta juntamente com sua jovem esposa, eu pergunto: o PT assinou a Carta de 88? O PT assinou a Constituição de 88? E o pessoal faz onda agora sobre carta à democracia para tentar atingir a mim", declarou.>
A afirmação de Bolsonaro, porém, é distorcida. Na Assembleia Nacional Constituinte, o PT votou contra a redação final da Constituição, mas, depois de aprovada, foi um dos signatários da promulgação do texto.>
Bolsonaro também questionou onde estavam os autores da carta pela democracia deste ano na época da pandemia da Covid-19 e disse que decretos de governadores e prefeitos feriram diversos dispositivos constitucionais.>
Esta é uma declaração recorrente do presidente. No entanto, ele ignorou o fato de que o consenso científico do mundo todo afirmava na época que a redução de circulação de pessoas nas ruas era a única solução para conter o avanço do novo coronavírus, que já matou mais de 680 mil brasileiros.>
Na live transmitida nas redes sociais, o chefe do Executivo também afirmou que o que interessa é o respeito à Constituição, e não assinar carta pela democracia.>
"Alguém discorda que essa daqui é a melhor carta à democracia, alguém tem dúvida? Acha que outro pedaço de papel qualquer substitui isso aqui?", disse.>
Ele criticou a carta ao povo brasileiro publicada por Lula em 2002, quando o petista era candidato a presidente e divulgou um texto com o objetivo de reduzir a rejeição junto ao empresariado.>
"Foi uma carta à corrupção brasileira, foi o que PT fez quando assumiu. Vão fazer cartinha, servir de passaporte que é bom moço, não funciona, tem que dar exemplo aqui", afirmou.>
A elaboração da carta pela democracia lida nesta quinta surgiu após Bolsonaro fazer seu maior ataque ao sistema eletrônico de votação e à Justiça Eleitoral, ao ter convidado embaixadores do mundo todo para fazer uma apresentação com acusações infundadas de fraude nas urnas eletrônicas.>
Diversos artistas, intelectuais, atores do setor econômico e da sociedade em geral assinaram o manifesto, que já tem mais de 990 mil signatários.>
Nesta quinta, o manifesto foi lido em um evento na Faculdade de Direito da USP, com discursos contra o autoritarismo e ameaças do mandatário às instituições.>
Além da carta organizada por integrantes da USP, também teve repercussão a manifestação em defesa da democracia assinada por entidades como a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e a Febraban (Federação Brasileira de Bancos).>
Diante do isolamento pelo movimento que envolveu diversos atores da sociedade civil, Bolsonaro se convidou para ir à Febraban nesta semana.>
Pelo menos três interlocutores de Bolsonaro, das áreas econômica e política do governo, procuraram dirigentes da alta cúpula da federação para marcar um encontro dele com os banqueiros. A ida do mandatário à entidade ocorreu na última segunda-feira (8).>
Na ocasião, apesar de ter criticado o sistema eleitoral, não ofendeu nem agrediu os convidados, e dispensou o uso de adjetivos como "mamíferos".>
Em publicação nas redes sociais após a live, o presidente chamou o ato na USP de "micareta do PT".>
Além disso, fez referência à relação do partido com ditaduras da América do Sul e disse que "assinar uma carta pela democracia enquanto apoia regimes que a desprezam e atacam os seus pilares tem a mesma relevância que uma carta contra as drogas assinada pelo Zé Pequeno [personagem do filme "Cidade de Deus"], ou um manifesto em defesa das mulheres assinado pelo Maníaco do Parque".>
Na mesma publicação, o mandatário afirmou que, "para efeitos legais", o manifesto "vale menos que papel higiênico".>
"Das duas uma, ou a esquerda repentinamente se arrependeu de suas ameaças crônicas à nossa democracia, como os esquemas de corrupção, os ataques à propriedade privada e a promoção de atos violentos, ou trata-se de uma jogada eleitoral desesperada. O golpe tá aí, cai quem quer", escreveu.>
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