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Clemilde Cortes Pereira
"Bolsonaro é uma calamidade que se abateu sobre o Brasil"
Primeira mulher  eleita presidente da CUT-ES critica o governo, admite que o movimento sindical está em baixa e afirma que  Lula é inocente: "Não há provas contra ele".

Leonel Ximenes

Colunista

Publicado em 04 de Novembro de 2019 às 04:30

Publicado em

04 nov 2019 às 04:30

Primeira mulher a ser eleita em um congresso para a presidência da Central Única dos Trabalhadores no Espírito Santo, a servidora pública aposentada da Prefeitura de Vitória Clemilde Cortes Pereira, de 58 anos, não foge da luta. Há dois mandatos no cargo de secretária de Administração e Finanças da CUT/ES, a administradora afirma que sua eleição dá mais visibilidade à luta das mulheres, critica os governos Temer e Bolsonaro e admite que o sindicalismo vem perdendo força no Brasil: “ O principal motivo é a onda de ataques orquestrados contra o movimento sindical. Mas nosso dever é assumir a tarefa de resgatar o interesse pela coletividade e fazer desse resgate uma grande retomada da força dos movimentos populares em geral, entre eles, os sindicatos”, diz Clemilde, que é divorciada e mãe de três filhos.

O que representa para as mulheres e para o movimento sindical ter pela primeira vez uma mulher eleita para a presidência da CUT-ES?

Outras duas mulheres ocuparam interinamente a presidência da CUT. No entanto, sendo eleita em um congresso é a primeira vez. A CUT já trabalha com paridade entre homens e mulheres em suas várias instâncias de decisão e cargos. Ser a primeira mulher eleita em um congresso é importante para as lutas das mulheres, pois dá visibilidade e mostra que estamos na luta sindical da mesma forma que nossos companheiros, com as mesmas responsabilidades e encarando os desafios.

Em linhas gerais, como será sua gestão na Central nos próximos quatro anos? O que a sra. pretende fazer de diferente do que foi feito até agora na presidência da CUT-ES?

O momento é diferente. Então muita coisa será diferente. Saímos de uma situação de democracia para a conjuntura de um golpe consolidado com a eleição de um presidente com posições declaradamente fascistas. Portanto nossa ação sindical nessa conjuntura terá de ser diferente. Mas as diferenças que vierem serão fruto de planejamento coletivo, decididas conjuntamente pela direção plena da Central e em consonância com as decisões nacionais.

O movimento sindical vem perdendo força nos últimos anos no Brasil. O principal motivo é o fim do Imposto Sindical?

O principal motivo é a onda de ataques orquestrados contra o movimento sindical. Arrancar formas de financiamento das organizações de trabalhadores é tática autoritária para minar a resistência a projetos que cortam direitos. Mas há, sim, uma crise de identidade coletiva, de as pessoas se verem como parte de um todo e dele quererem participar. Vemos isso como um sintoma da sociedade em que vivemos. Mas nosso dever é assumir a tarefa de resgatar o interesse pela coletividade e fazer desse resgate uma grande retomada da força dos movimentos populares em geral, entre eles, os sindicatos.

Diante dessa nova realidade financeira, o que centrais sindicais, confederações, federações e sindicatos devem fazer para se manter?

A estratégia é realizar grandes campanhas de sindicalização, mostrar para o trabalhador que, após a reforma trabalhista imposta sob o golpe de Michel Temer, só sobraram os sindicatos para a defesa de seus direitos. Querem acabar com a Justiça do Trabalho, assim como querem acabar com os sindicatos. Vamos mostrar para a classe trabalhadora todos esses ataques e buscar organizá-la em torno dos sindicatos, com filiações em massa. Uma tática também é a retomada das Organizações por Local de Trabalho, que é uma ação sindical firme e revigorada no chão de fábrica e em todos os espaços de trabalho.

O governo diz que quer acabar com a regra que permite apenas um sindicato por categoria em cada cidade. A CUT é favorável ao plurisindicalismo?

A unicidade sindical tal como concebida já não existe há muito tempo. Há casos de grandes empresas, como montadoras de automóveis, em que há mais de 30 sindicatos atuando junto a seus empregados. O problema é que a intenção do governo é pulverizar e acabar com a organização de categorias. Com isso não podemos concordar.

A CUT é muito identificada com o PT e Lula. Essa vinculação não tem trazido danos à imagem da central?

A CUT é, por princípio, autônoma e independente ante patrões e governos. Alinhar-se a um partido de forma programática não significa submeter-se a ele. O Partido dos Trabalhadores sofreu uma campanha de difamação nunca antes vista na história de nosso país. Os respingos que essa campanha possa ter produzido na imagem da Central vão se dissipando quando a população passar a perceber que essa campanha era justamente para arrancar direitos da classe trabalhadora.

Por que a CUT foi contra as reformas trabalhista e da Previdência?

A reforma trabalhista rasgou a CLT e impôs a precarização do trabalho, com retrocessos inimagináveis há até alguns anos atrás. Ela trouxe formas de contratação que beiram à escravidão. A reforma da Previdência praticamente anula a chance de o trabalhador se aposentar com aposentadoria integral e, mesmo nesses casos, ainda impõe perdas quando da aposentadoria através das formas de cálculo de benefícios.

Qual a avaliação da Central sobre o governo Bolsonaro?

É um governo inimigo dos trabalhadores. Avança sobre direitos e é declaradamente defensor de uma legislação que só faz precarizar as formas de contratação e quer ainda acabar com a organização sindical. Trata-se de um governo para ricos, para o mercado, voltado para a desnacionalização da economia e entreguismo do patrimônio nacional. É uma calamidade que se abateu sobre o Brasil.

A CUT está sendo bastante crítica ao atual governo, foi assim também em relação a Temer, mas não se viu toda essa vigilância em relação aos governos do PT e às denúncias de corrupção na época. A central “aliviou” para as gestões petistas?

Em momento algum. A CUT nunca deixou de promover greves do funcionalismo público nos governos do PT, de denunciar a corrupção e defender transparência nas gestões públicas. O governo Temer foi fruto de um golpe contra a democracia em um processo de impeachment fraudulento e ilegítimo. Os governos do PT construíram formas de transparência e de combate à corrupção. Mas a orquestração da Lava Jato tinha como premissa acabar com o partido e com boa parte da indústria nacional. E a mídia comprou essa ideia de forma a trabalhar com denuncismos. Os vazamentos divulgados pelo The Intercept Brasil mostram claramente isso.

Para a senhora, Lula é culpado ou inocente?

Lula é inocente. Não há provas contra ele. E, pelo contrário, citando de novo o The Intercept Brasil, há provas incontestáveis de um processo forjado para aprisioná-lo e evitar que ele ganhasse a eleição de 2018.

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