Os ataques com mísseis autorizados pelo presidente norte-americano Donald Trump, em conjunto com franceses e ingleses, contra instalações sírias que constroem e armazenam armas químicas, não são simplesmente uma punição militar. No sentido mais amplo, também são uma mensagem de resposta da civilização, ou o que restou dela, contra a barbárie representada pelo uso de tais armas contra a população civil.
O regime de Bashar Al-Assad tem um histórico de crimes de guerra cometidos contra seus próprios cidadãos. Muito se debate acerca da autoria dos ataques químicos, com o governo sírio garantindo que foram os rebeldes que lutam contra o regime de Assad que usaram tais armas na cidade de Douma, perto de Damasco. Contudo, o regime sírio já tem um histórico comprovado de uso de armas químicas, e os relatórios de inteligência militar dos EUA apontam a autoria do governo sírio.
Do ponto de vista estratégico, a guerra na Síria, desde 2011, é um conflito assimétrico com vários contendores e alianças. Um conflito assimétrico é realmente difícil de ter uma resolução ou vitória militar final. O governo de Assad tem o apoio da Rússia, uma grande potência militar, o que praticamente garante que seu governo não cairá. Combatem o governo sírio vários grupos paramilitares chamados de “rebeldes”. Esses grupos têm o apoio de norte-americanos e outros atores regionais também lutam na região, como os curdos ao norte da Síria que combatem tanto as forças oficiais do governo Assad quanto as forças militares da Turquia, outra potência regional com interesses na região. Além desses grupos e nações envolvidas ainda há a presença do Estado Islâmico, um grupo terrorista islâmico que age com extrema violência, embora esteja mais fragilizado atualmente. Esse é o cenário de jogo de xadrez bastante complexo da realidade do conflito sírio.
O uso de mais de cem mísseis de cruzeiro de alta precisão contra instalações do governo sírio acusadas de estocar armas químicas não tem o poder de desmantelar o regime de Damasco. Trata-se de um “ataque punitivo” em resposta a um crime de guerra com o uso de armas químicas que são banidas pelo direito internacional justamente por seu barbarismo de matar inocentes. Por envolver os interesses de poder das duas maiores potências nucleares, EUA e Rússia, com interesses opostos no conflito sírio, é praticamente impossível uma saída para o conflito que signifique a derrubada de Assad. À Rússia interessa manter a aliança com Damasco para evitar que gasodutos passem por território sírio e assim substituam ou diminuam o controle russo de fornecimento de gás natural para a Europa. Qualquer saída para o conflito na Síria teria que integrar interesses divergentes russos e norte-americanos, ou seja, algo realmente improvável.
* Helvécio de Jesus Júnior é doutor em História pela Ufes e professor da UVV.