
Antônio Carlos de Medeiros*
É legítima a reação das universidades federais aos bloqueios arbitrários nas verbas. O efeito é dramático nas pesquisas e na formação de novos mestres e doutores. Estudantes e professores estão nas redes e nas ruas. A mobilização cresceu. A contranarrativa da comunidade acadêmica já supera a narrativa troglodita do ministro Weintraub e de Bolsonaro. Coloca a educação no epicentro do debate nacional.
Mas a crise orçamentária não deveria desviar a atenção dos alunos, professores, funcionários e da sociedade para uma realidade que precisa ser encarada: as universidade federais vivem há muitos anos com uma crise que é mais grave, a crise de qualidade e relevância. As exceções ainda confirmam a regra. Professores e alunos desmotivados conformam um clima entrópico de predominância do poder burocrático sobre o poder acadêmico.
A pedra de toque da Era do Conhecimento é a “desdiferenciação”, isto é, a superação da divisão rígida do trabalho e da separação entre trabalho manual e trabalho intelectual. Da superespecialização para a polivalência, na chegada ao século XXI. A essência do ensino superior deve ser aprender a pensar e resolver problemas. O que requer a transversalidade do conhecimento e do saber, e não a sua compartimentação. Estamos na era da confluência da tecnologia da informação com a biotecnologia; da efervescência da fusão de tecnologias; da aceleração da
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O futuro já chegou. O emprego será gradualmente substituído pelo empreendedorismo e pela livre iniciativa e versatilidade. O que requer intuição. Capacidade cognitiva e habilidades socioemocionais. Especializações mutantes. Trocas cíclicas de funções e atribuições. Conhecer, compreender, pensar, resolver problemas, buscar soluções.
A qualidade precisa estar no epicentro do debate educacional. Qualidade científica no sentido estrito; qualidade como relevância e aplicabilidade; e qualidade como impacto na própria educação – é a universidade que forma os professores dos jovens brasileiros. O modelo vigente nas federais, de “profissões” e “departamentos”, fragmenta o saber e engessa o processo decisório, pela proliferação de instâncias burocráticas de decisão.
A qualidade precisa ser uma obsessão. É ela que vai legitimar as universidades. Por isto, é preciso revisitar currículos; construir a transversalidade do conhecimento; aprofundar sistemas de avaliação; rever formas de financiamento para uma universidade pública; dialogar com a sociedade e com o setor produtivo.
Que tal uma Constituinte Universitária no âmbito das próprias universidades? Responder ao trator troglodita com propostas para melhorar as universidades. Confluir para as estradas virtuosas da relevância. Recuperar a autoestima. Dá tempo ainda.
*O autor é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science