
Fernando Repinaldo*
A verdade factual tem nos mostrado que o desenvolvimento das cidades e as políticas de transporte urbano são marcados por um problema ordinário no Brasil: a falta de planejamento, que, entre outras, permitiu a soberania dos pneus sobre os trilhos e do transporte individual sobre o coletivo. Aqui entre nós a situação não é diferente.
Francamente, todo o transporte de cargas, que deveria estar no sistema ferroviário e no de cabotagem, veio para as rodovias com um objetivo: criar mercado para a indústria automobilística de transporte de cargas e de pessoas. Lógico, a opção pelo transporte sobre pneus e a falta de coordenação da política de mobilidade urbana foram resultado da visão restrita da importância do transporte coletivo, estimulada pelo lobby da nascente indústria de automóveis.
Vez por outra, assistimos a diversas tentativas de planejamento, como a segregação de faixas para ônibus, porém, muitas delas, apesar dos diagnósticos severos do presente e previsões sombrias sobre o futuro da mobilidade em nossa região, ou chegavam atrasadas ou sequer saíram do papel de acordo com o projeto apresentado.
Não é de se estranhar que o estudo “A Mobilidade Urbana no Brasil”, do Ipea, tenha identificado que a política de desenvolvimento urbano e a política de transporte urbano sempre se caracterizaram por ações desarticuladas, aplicadas por diferentes setores do governo, sem diretrizes ou estratégias básicas. Sem intervenções coordenadas do poder público, a adesão ao transporte individual se intensificou. Por consequência, o histórico da mobilidade urbana no Brasil inclui diversas manifestações populares contra altas tarifas e baixa qualidade do transporte coletivo.
Para se ter uma ideia, a Fundação Dom Cabral apurou que, de 2002 a 2012, em valores atualizados, R$ 6,8 bilhões foram previstos no Orçamento da União para ações de mobilidade urbana, porém apenas R$ 1,3 bi (19,1%) foi aplicado. Não por acaso, portanto, a grande parte das prefeituras raramente consegue formular uma política de transporte mais ampla (abrangendo transporte coletivo, trânsito e vias públicas). Nesse contexto, o máximo que os prefeitos conseguem fazer é apresentar soluções para problemas localizados, o que pode produzir novas dificuldades, como alertaram os pesquisadores a respeito.
Por que essa situação se sustenta? Ora, os artifícios retóricos permitem a muitos governantes escaparem à responsabilidade por manipularem as informações, cujo intuito é criar realidades virtuais a fim de corroborar sua visão. Eles não são realmente objetivos, pois maquiam consideravelmente suas escolhas para então desconsiderarem os críticos, dizendo que estes esperam o impossível, ou seja, uma objetividade perfeita.
Por fim, embarcando nos ensinamentos de Thomas Sowell, concluímos que quando a veracidade é manipulada para se encaixar numa visão particular, isto se torna um instrumento inapropriado para tomar decisões numa realidade que não perdoa nossas fantasias.
*O autor é especialista em Administração Pública, Gestão de Projetos e Engenharia de Tráfego