
Paulo Brandão*
É com sentimento de urgência e ainda com um fio de esperança que convido a todos a percebermos o quanto nós capixabas estamos vivendo em condições de precariedade em relação ao sistema de transporte coletivo, principalmente o Transcol.
É a vida. Este é o ponto de partida e de chegada desta reflexão. Deveria também ser dos que se propõem a fazer, gerir e aplicar os recursos financeiros, dos nossos impostos, em política pública. É preciso sanar os graves problemas que atormentam e ferem, em muitos casos de morte, a vida de tantos capixabas, que mesmo de passagem, se aventuram todos os dias nos ônibus, condenados a um único modelo de transporte, o rodoviário.
De 2014 a 2018, coletei dados para uma pesquisa de fim de curso da Ufes com o título: "Pedestres/passageiros no cotidiano capixaba: inventores de paisagens e construtores de um lugar". O estudo foi sobre as experiências de passageiros no cotidiano capixaba. Neste período, vivi de perto as diversas partilhadas de vida no ir e vir de tantos trabalhadores, estudantes, idosos, pessoas com deficiência e tantos outros, que necessitam usar o ônibus todos os dias, para se deslocar em busca da sobrevivência de si e da família.
Fica claro que não dá mais para termos uma só forma de transporte coletivo na Grande Vitória. Não dá para ficar inerte a essa realidade que assombra a todos nós. Só ignoram a tensão e a intensidade, a espontaneidade cheia de riquezas, mas também de dramas, desse partilhar de vidas dentro de um coletivo.
Aqueles que se propuseram a assumir um cargo público deveriam fazer a defesa dos capixabas que mais precisam. No entanto, nos últimos anos, estiveram mais preocupados com tarefas à mesa e seus prazos. Eles não conseguiram perceber o que estava à sua volta, não foram capazes de fazer mais para os que mais precisavam. E, nós, os capixabas, que andam de ônibus, continuamos sofrendo.
O saldo desse abandono aos mais pobres, dos tantos usuários dos ônibus, resulta em assaltos constantes, tiros, medo e mortes de muitos inocentes trabalhadores, cidadãos capixabas. O ônibus Transcol se tornou o símbolo do abandono dos governos aos que mais precisam trabalhar e, portanto, se locomover nos coletivos quentes, lotados e caóticos.
O que fica na opinião da maioria dos usuários é que apesar de sentirem condenados a um único modelo de transporte coletivo, tem que pagar para isso, para sofrer embarcado, carregando as dores do trajeto que deixam marcas no corpo, e se repete todos os dias numa luta incessante pela sobrevivência e manutenção da vida.
A esperança, que está por um fio, é que a nova gestão estadual, que defende um governo com ações sociais, aplique o dinheiro publico em favor dos capixabas que sofrem dentro dos coletivos e amenize a dor sofrida deste povo trabalhador.
*O autor é filósofo e sociólogo