Marcos Alencar*
Toda moqueca pede farinha, pimenta e silêncio. Comete pecado quem conversa diante de uma moqueca fumegante. Deixe o papo para os elogios de depois. Ou para contar vantagens, assim como eu que gosto de me exibir quando o assunto é a culinária de frutos dos mar. A verdade é que na cozinha consigo dar o meu recado. E bem. Modéstia às favas! Foi Nazareth – minha mulher e maratimba sênior - quem me ensinou a ciência e o tempero. E faço acontecer nas de peixes, siris, caranguejos, todos os mariscos, banana-da-terra, de ovo e até de frango. Se nunca ouviu falar, experimente. Pode ser de pedaços do peito ou de coxinhas das asas. O processo é o mesmo, com coentro e tudo. Fica daqui, ó!
No reino encantado das moquecas haverá sempre muito o que ensinar e muito o que aprender. Contam que Dona Canô, a saudosa baiana mãe de Caetano e Bethânia, um dia recebeu a visita surpresa de um amigo e juntos foram pra cozinha: “Vou fazer uma moqueca para nós”. “De quê?”, perguntou o amigo. E ela:“De caju”. E diante do espanto do visitante, ensinou: “Moqueca se faz com o que se tem”.
Desde que a Pedra da Cebola era conhecida como Pedra do Sino que se busca atrair turistas para estas bandas acenando com as delícias da moqueca capixaba. E não consigo imaginar quem – tirando de cena, gourmands e endinheirados – mete o pé nos aceleradores e nos jatos para vir atrás de um bom prato de comida. Quem? Não conheço ninguém que se mande pra Ouro Preto atrás da costelinha de porco com tutu e couve. Ou a Porto Alegre por conta do melhor churrasco do país. Em Havana, as lagostas abundam. Deliciosamente servidas, com um molhinho de caviar, a preços muito mais em conta do que qualquer moqueca de peixe em Guarapari. Mas ninguém viaja a Cuba pra comer lagostas. A feijoada carioca, tão famosa como a nossa moqueca, não é páreo pra Ipanema, o Cristo e o carnaval. Aqui, entra ano e sai ano, a nossa moqueca permanece sozinha acenando aos turistas. Houve um tempo em que nossas praias somavam forças. Hoje, imundas como andam, o melhor é fazer boca de siri.
Nossa capital é uma ilha e poucos se dão conta disso por aí afora. Não “vendemos” uma ilha tropical, jovial e faceira. Vendemos tão somente uma panela de barro à mesa. O turismo carioca traz sempre na sua comissão de frente a imagem do Cristo Redentor. O Convento da Penha, historicamente mais importante e mais longevo do que a bela estátua do Corcovado, é uma atração reservada apenas aos católicos. Quem no Brasil já ouviu falar do Mosteiro Zen budista, de Ibiraçu? Único na América do Sul.
A subida de barco pelo rio Piraquê-Açu, em Santa Cruz, é um passeio imperdível. Ao final, o barco aporta e um mergulhador busca ostras nas raízes do manguezal para a delícia dos passageiros. Depois do passeio é a hora do melhor da festa. Hora de abrir o cardápio e escolher a moqueca. Se tiver, peça a de baiacuzinho do mangue. Vá por mim.
*O autor é cronista