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Artigo de Opinião

Marcos Alencar

Toda moqueca pede farinha, pimenta e silêncio

Desde que a Pedra da Cebola era conhecida como Pedra do Sino que se busca atrair turistas para estas bandas acenando com as delícias da moqueca capixaba

Publicado em 12 de Abril de 2019 às 20:26

Publicado em 

12 abr 2019 às 20:26
28/09/2018 - Moqueca capixaba do Caranguejo do Assis Crédito: Bruno Coelho
Marcos Alencar*
Toda moqueca pede farinha, pimenta e silêncio. Comete pecado quem conversa diante de uma moqueca fumegante. Deixe o papo para os elogios de depois. Ou para contar vantagens, assim como eu que gosto de me exibir quando o assunto é a culinária de frutos dos mar. A verdade é que na cozinha consigo dar o meu recado. E bem. Modéstia às favas! Foi Nazareth – minha mulher e maratimba sênior - quem me ensinou a ciência e o tempero. E faço acontecer nas de peixes, siris, caranguejos, todos os mariscos, banana-da-terra, de ovo e até de frango. Se nunca ouviu falar, experimente. Pode ser de pedaços do peito ou de coxinhas das asas. O processo é o mesmo, com coentro e tudo. Fica daqui, ó!
No reino encantado das moquecas haverá sempre muito o que ensinar e muito o que aprender. Contam que Dona Canô, a saudosa baiana mãe de Caetano e Bethânia, um dia recebeu a visita surpresa de um amigo e juntos foram pra cozinha: “Vou fazer uma moqueca para nós”. “De quê?”, perguntou o amigo. E ela:“De caju”. E diante do espanto do visitante, ensinou: “Moqueca se faz com o que se tem”.
Desde que a Pedra da Cebola era conhecida como Pedra do Sino que se busca atrair turistas para estas bandas acenando com as delícias da moqueca capixaba. E não consigo imaginar quem – tirando de cena, gourmands e endinheirados – mete o pé nos aceleradores e nos jatos para vir atrás de um bom prato de comida. Quem? Não conheço ninguém que se mande pra Ouro Preto atrás da costelinha de porco com tutu e couve. Ou a Porto Alegre por conta do melhor churrasco do país. Em Havana, as lagostas abundam. Deliciosamente servidas, com um molhinho de caviar, a preços muito mais em conta do que qualquer moqueca de peixe em Guarapari. Mas ninguém viaja a Cuba pra comer lagostas. A feijoada carioca, tão famosa como a nossa moqueca, não é páreo pra Ipanema, o Cristo e o carnaval. Aqui, entra ano e sai ano, a nossa moqueca permanece sozinha acenando aos turistas. Houve um tempo em que nossas praias somavam forças. Hoje, imundas como andam, o melhor é fazer boca de siri.
Nossa capital é uma ilha e poucos se dão conta disso por aí afora. Não “vendemos” uma ilha tropical, jovial e faceira. Vendemos tão somente uma panela de barro à mesa. O turismo carioca traz sempre na sua comissão de frente a imagem do Cristo Redentor. O Convento da Penha, historicamente mais importante e mais longevo do que a bela estátua do Corcovado, é uma atração reservada apenas aos católicos. Quem no Brasil já ouviu falar do Mosteiro Zen budista, de Ibiraçu? Único na América do Sul.
A subida de barco pelo rio Piraquê-Açu, em Santa Cruz, é um passeio imperdível. Ao final, o barco aporta e um mergulhador busca ostras nas raízes do manguezal para a delícia dos passageiros. Depois do passeio é a hora do melhor da festa. Hora de abrir o cardápio e escolher a moqueca. Se tiver, peça a de baiacuzinho do mangue. Vá por mim.
*O autor é cronista
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