A criançada sabe muito bem que não existe no mundo pessoa mais chata do que mãe. Elas não contam isso pra ninguém, mas nós adultos estamos cansados de saber que a rainha do lar é fogo. Uma autêntica capitã no comando de sua tropa: “Desce daí”; “Tira a mão da boca”; “Senta aí e só saia quando eu mandar”; “Nem um pio, ouviu?”;“Engole esse choro”; “Só levanta da mesa quando raspar o prato”; “Pode tratar de comer o almeirão, senão...”; “Desliga este celular e já pra cama”. Diante de uma mãe zelosa, respirar pode. E só. Mas elas não fazem isso por mal. É o preço que pagam pela extrema dedicação na busca de um futuro risonho para seus filhos queridos.
Até chegar o dia em que esse coração militar perde o prazo de validade. Ele expira exatamente quando elas se tornam... avós. E é aí que tudo muda de figura.
A cantilena agora passa a ser outra: “Tá chorando por quê, meu amor?”; “Não quer mais comer? Não tem problema, amanhã vovó faz batata frita”; “Eu sei, coração, almeirão é horrível!”; “Tome o celular, depois que o soninho chegar, vovó põe pra carregar...”
Assim são as avós. Uma vida inteira de amor sem fim. Um doce enredo onde tudo muda, menos o coração delas.
Mudam os nomes, os hábitos, as práticas. Eram vovós Alcista, Melinha, Carmita, Gilda, Célia, Donária, Lindinha... logo, logo serão Elaine, Mara, Érica, Priscila, Pamela, Sabrina, Andrezza...
Na casa das antigas avós havia sempre na copa, em cima do étager, compotas de laranja da terra, de carambola, de jenipapo. Na casa das avós de hoje em dia, em cima do aparador, ficam as latas de biscoitinhos, o pote de bombons e a fruteira com bananas e maçãs. Vovós antigas faziam bolos de fubá inesquecíveis. Vovós de agora compram bolos, tortas e pudins inesquecíveis nas boas padarias. As de ontem tricotavam. As de hoje fazem shopping.
Nas casas das avós de antigamente havia sempre um gato. E ele sempre se chamava Mimi. Todas usavam pó-de-arroz e um pouquinho de rouge nas bochechas. As avós de hoje ficam lindas nos salões de beleza. Quando se ferem numa lata enferrujada, correm a tomar antitetânico. As velhas avós, ao se ferirem, passavam a metade de um limão galego no sal grosso, esquentavam na chapa do fogão à lenha e comprimiam no ferimento. Dava no mesmo.
As avós de hoje em dia se vestem com muito mais elegância e tem uma boa coleção de roupas, adequadas a cada estação do ano. As avós de antigamente tinham um único e bom vestido. Era o “pra ver Deus”. Com ele iam à missa e às festinhas de família.
As avós dos velhos tempos ou sabiam benzer ou tinham uma benzedeira de confiança. Era só passar o galho para qualquer pé destroncado voltar a ficar bom de novo. As vovós de hoje não abrem mão de uma ressonância magnética.
Assim são as avós. Doces, encantadoras e inesquecíveis. Ontem, hoje e sempre.