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Artigo de Opinião

Fé

Tirem o rei da cruz e ponham-no no trono

Sabe-se que Jesus crucificado é o símbolo maior do cristianismo. Relembra a doação que Cristo fez por todos

Publicado em 22 de Março de 2019 às 14:41

Publicado em 

22 mar 2019 às 14:41

Jesus Cristo na cruz

Ramon Linhalis Guimarães*

Esses dias reparei um Jesus diferente. Ordinariamente ele é apresentado alinhado na cruz. E, de certa forma, isso retira parte substancial da repugnância que se deve ter quanto ao ato de crucificação. Contudo, dessa vez, a obra de arte o representava torto na cruz, retratando que no momento da inserção dos cravos em suas mãos e pés, o verdugo não estava preocupado com a homogeneidade visual do ato. Assim provavelmente ocorreu.

Imediatamente senti ojeriza e deixei de olhar a cena com naturalidade. O desejo que despontava era no sentido de desprender o corpo figurativo de Jesus da cruz de madeira. Como esse sentimento nunca veio à tona antes?

Sabe-se que Jesus crucificado é o símbolo maior do cristianismo. Relembra a doação que Cristo fez por todos, entregando a própria vida pela nossa salvação. Entretanto, inegavelmente expõe a violência inerente à nossa raça, cujos membros são capazes de torturar e assassinar os semelhantes por questões ideológicas, inclusive.

Ainda hoje, mais de dois mil anos depois do ocorrido, nos conformamos com a situação na qual Ele foi posto, mesmo que estejamos diante de uma imagem simbólica e reduzida; da mesma forma que muitos, à época, conformaram-se ao presenciar a crucificação, numa passividade e condescendência incompatível com a gravidade que envolve a questão.

Será que O olhamos todos os dias como Ele merece, ou nos acostumamos tanto com a nossa crueldade que sequer sentimos o peso de carregar no peito um homem crucificado?

Como ato metafórico, e que reflete amadurecimento, Jesus deve ser retirado da cruz e posto num trono, com os pés e as mãos livres. É assim que o Rei dos Judeus deve ser tratado, malgrado não seja da sua natureza as honrarias que emolduram os poderes reais terrestres, e mesmo que se apresente ilógico compará-Lo com qualquer monarca.

Em verdade, não se trata de simples ritual conveniente às majestades. Vai muito além disso. Passa pela superação da ideia de que o filho de Deus foi apenas um mártir. Evidencia nossa reação indignativa.

Nesses termos, a cruz, isoladamente, continuaria refletindo o sofrimento e a morte do nosso divino Mestre pela salvação da humanidade. E Jesus Cristo, agora entronizado, traduziria o reconhecimento de nossa ignorância e resistência perante aquilo que nos foi oferecido com júbilo: o amor ágape. Que o Messias de Nazaré, num especial trono de amor, reine vivo dentro do coração de cada um de nós.

*O autor é advogado público

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