
Antônio Carlos de Medeiros*
A política de meio ambiente do governo Bolsonaro tem como premissa a negação do aquecimento global e das mudanças climáticas. Emite sinais contraditórios. A ministra Tereza Cristina declarou que vai lutar pelo Código Florestal, para produzir de forma sustentável.
O debate ambientalista internacional está superando a fase do “entre uma coisa e outra” e caminhando para a fase do “para além”. Para a direita ortodoxa, a proteção do meio ambiente sabota o crescimento e o padrão de vida. Para os verdes ortodoxos, só um recuo do crescimento reduz a poluição. Para além dessa dicotomia, há um novo consenso em formação.
Ir além da solução de limitar a poluição e a invasão humana. Isto é necessário, mas não suficiente. O progresso da ciência permite inovações tecnológicas voltadas para a produção de energia limpa. O novo consenso é construído em torno da possibilidade de superar o paradoxo crescimento “versus” meio ambiente. Assenta-se na orientação para inovação, tecnologia e ecologia – ou seja, a inovação permite perfis ecológicos mais sofisticados: os novos sistemas verdes de produção decorrentes do trinômio inovação-produtividade-sustentabilidade.
Desenvolvimento, progresso, padrão de vida e gestão do meio ambiente não são incompatíveis. É a visão do “ambientalismo iluminista”, uma atitude alternativa em relação à proteção ambiental: “um ambientalismo esclarecido reconhece que os humanos precisam usar energia para sair da pobreza para a qual a entropia e a evolução os empurram, e busca os meios para fazer isso com o menor dano ao planeta e ao mundo vivo. A história sugere que esse ambientalismo moderno, pragmático e humanístico pode ter êxito. Conforme o mundo se torna mais rico e avançado em tecnologia, mais se desmaterializa, se descarboniza e se densifica, poupando terras e espécies” (Steven Pinker, “O Novo Iluminismo”).
Não se pode mais reduzir o “estoque” de estragos ambientais, mas se pode reduzir o “fluxo”. Enfrentar perversos problemas da saúde dos oceanos e dos gases de efeito estufa, com a ameaça das mudanças climáticas. Nesta direção, o Brasil tem um papel central.
Primeiro, pela importância da Amazônia na contenção dos fluxos dos gases de efeito estufa. O processo de evitar que a temperatura média da atmosfera planetária se aqueça mais que 2ºC, conforme alerta do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Segundo, pela importância na produção de alimentos. O Brasil virou potência no agronegócio pela chegada ao campo das tecnologias das áreas da genética e da biotecnologia, e da digitalização – com satélites, drones e sensores. Mais eficiência e mais sustentabilidade.
Torna possível a atitude alternativa iluminista, comprometida com a razão, a ciência, o progresso e o humanismo – para além das ortodoxias.
*O autor é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science