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Superministros e boitatás não existem

Paulo Guedes será a segunda pessoa mais poderosa do país e, a cada crise, só a cabeça dele estará a prêmio

Publicado em 02/01/2019 às 23h23
Paulo Guedes. Crédito: Marcello Casal jr/Agência Brasil
Paulo Guedes. Crédito: Marcello Casal jr/Agência Brasil

Thomas Traumann*

A partir deste mês, o economista Paulo Guedes é a segunda pessoa mais poderosa do Brasil. Sob o seu controle como ministro da Economia estarão a arrecadação de impostos, a liberação de todo centavo de recurso público, a folha de pagamento dos servidores federais e fatia majoritária do crédito de longo prazo. É tanto poder que Guedes foi apelidado de “superministro”.

Parte da expectativa foi gerada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, que se eximiu da ignorância em questões econômicas pela promessa de se aconselhar com Guedes, o seu “posto Ipiranga” particular. A rapidez com que o empresariado aderiu a Bolsonaro foi decorrência direta da crença de que o economista será uma espécie de primeiro-ministro a partir de 2019.

Um spoiler: superministros, assim como os boitatás, não existem. No regime presidencialista, o poder de um ministro não é um direito, mas uma concessão. O seu alcance está vinculado à vontade de quem recebeu os votos. Isso vale para Guedes, mas também para outros ministros importantes, como o general Augusto Heleno e o ex-juiz Sergio Moro. É ingenuidade supor que um presidente eleito com 57,8 milhões de votos se submeta a um assessor sem nenhum.

O ministro sofrerá pressão sobre-humana. A sua função número 1 será dizer “não”. Saber negar é a arte do exercício do poder. Existe um tom de “não” para um colega ministro, outro para o empresário com interesses protecionistas e um terceiro para um senador. Todo “não” gera um inimigo em potencial. Ser ministro da economia do Brasil é o pior emprego do mundo.

A cobrança será equivalente à expectativa. O nível indigente da campanha eleitoral permitiu ao futuro governo atravessar 2018 sem detalhar a proposta de reforma da Previdência e como pretende aprová-la no Congresso. Tampouco se sabe a dimensão do pacote de privatizações, da reforma tributária e da abertura da economia ao exterior.

Uma agenda tão ambiciosa amplia em doses iguais a pressão e a fragilidade de Guedes. Em um país como o Brasil, que vive há décadas de um transtorno econômico para outro, ministros são gerentes de crise. Os ministros da Economia vivem atolados em explicações sobre dezenas de índices que afetam o bolso dos brasileiros, como o desemprego e a inflação. Os presidentes, em compensação, só se preocupam com um indicador, o da sua popularidade.

Economista da mesma cepa liberal de Guedes, Mario Henrique Simonsen também foi chamado de superministro quando assumiu a Secretaria de Planejamento do governo João Figueiredo, em 1979. Durou apenas cinco meses no cargo porque, mesmo com muitas atribuições formais, não conseguiu convencer Figueiredo de que os anos de crescimento haviam acabado.

Tempos depois, Simonsen cunhou uma frase sobre os limites do poder: “A tragédia do trapezista é quando ele acha que sabe voar e manda tirar a rede de proteção”. Os ditos superministros, assim como os trapezistas, podem fazer o espetáculo, mas não sabem voar.

Ao conceder ao futuro ministro o monopólio do debate econômico, Bolsonaro se resguarda. Se o país crescer e gerar empregos, ele colherá, naturalmente, os louros da aposta. Se der errado, a derrota é exclusiva do ministro. A cada crise, apenas a cabeça de Guedes estará a prêmio.

*É jornalista, consultor político-econômico independente, palestrante e ex-ministro de Comunicação Social (2014-2015)

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