
Rimaldo de Sá*
“Epopeia”: poema que narra os feitos de um herói histórico ou lendário que representa uma coletividade. Enquanto Homero eternizou em “Ilíada” o guerreiro Odisseu, e Luís de Camões narrou em “Lusíadas” as aventuras do navegador Vasco da Gama, o Brasil tem no retirante nordestino seu personagem épico.
O fluxo migratório do sertão para a “cidade grande” foi questão de sobrevivência. E não à toa esse personagem foi tão cantado, tão encenado, tão retratado. O retirante está nos filmes de Glauber Rocha, nos livros de João Cabral de Melo Neto e nas canções de Luiz Gonzaga, Caetano e Belchior, entre tantos outros.
Nas mais diversas formas de narrativas, as histórias mostram que as pessoas não se retiram de onde estão as suas raízes por opção. Elas se retiram por falta de alternativa. Se não houvesse a necessidade, a seca, a fome, o sofrimento, não seria preciso se lançar em uma jornada ao desconhecido. Por isso Belchior cantou a solidão nas grandes cidades e o saudosismo de quando havia galos, noites e quintais. Por isso Luís Gonzaga exclamou que só deixaria seu Cariri no último pau de arara, adiando a despedida de sua terra.
Hoje, pelos mais diversos motivos, todos fomos retirados do nosso lugar de conforto e somos obrigados a buscar novos caminhos de sobrevivência. No trabalho, na sociedade, na família, na política, já vimos que o modelo como conhecíamos acabou. A sociedade se organiza, grupos ganham voz com reivindicações legítimas de diversidade e respeito, as instituições são pressionadas – o clube de futebol, o governo ou as empresas.
As mudanças atingem a todos, em diversas esferas. Não se trata de um segmento que sofre com o impacto de tecnologias ou a crise econômica, e sim uma transformação profunda no entendimento de sociedade e as relações de consumo.
Só sobrevive a essa transição quem consegue se manter relevante. E só se mantém relevante quem constrói junto e entrega soluções, com mentalidade voltada para colaboração, cocriação e capacidade de adaptação.
Nas inúmeras reuniões do meu dia a dia, percebo que muita gente se deu conta dessa necessidade de mudança, mas alguns ainda parecem desprezar os sinais. É normal se agarrar às vitórias que ainda vêm em formatos ultrapassados, mas uma hora elas param. O mundo como conhecíamos secou – e não vai chover.
Vivemos nossa própria epopeia. Somos todos retirantes apostando em novas formas de viver, nos relacionar e fazer negócios. Não sabemos o que vamos encontrar, mas é fato: aqui não dá mais para ficar.
Quem está esperando o último pau de arara, enquanto sua vaquinha ainda tem couro e o osso, vai sair tarde demais.
*O autor é empresário da área de Comunicação, publicitário e entusiasta da inovação e do empreendedorismo