Um dos professores de Matemática que mais marcou a minha vida costumava dizer que “você só aprendeu um conceito se for capaz de explicá-lo por telefone”. A gente se divertia quando ele fazia um telefone imaginário com sua mão e ligava para um aluno da sala pedindo uma definição para uma forma geométrica. Quem diria que, algumas décadas mais tarde, eu estaria ensinando Matemática pelo “telefone”.
Hoje, temos muito mais do que o telefone imaginário do professor Florêncio. Enviamos e recebemos conteúdos de toda natureza: textos, áudios, vídeos, gifs e emojis. Estamos ao vivo ou numa gaveta das nuvens e continuamos a ensinar, perguntar, responder e avaliar. Podemos quase sentir o cheiro da sala de aula. Quase...
Se é assim, do que sinto falta didaticamente então, além, é claro, da convivência vívida “pacífico-conflituosa” de dezenas de quereres diversos? Sinto falta de olhar para a classe. De fazer uma afirmação nova e procurar as dúvidas por trás dos olhares. De perceber os que desviam sua atenção inconscientemente. De andar por entre as filas e procurar nos cadernos abertos as interrogações que não verbalizaram.
É curioso constatar como somos seres contraditórios e insatisfeitos. Quantas vezes em sala já não quis “mutar” todos os alunos e deixar apenas o meu microfone ligado, como agora posso fazê-lo. Agora, gostaria de ouvir todos. Suas entonações, com facilidades ou dificuldades em se expressarem. Isto digo não como um efeito colateral do isolamento social, mas como fruto da reflexão de quanto o fator humano interfere na forma como vemos, nos relacionamos e aprendemos Matemática.
Nunca concordei com aqueles que incluem a Matemática no conjunto das ciências humanas (quem defende essa ideia argumenta que tudo o que estudamos em matemática é invenção da mente humana). Não creio nisso. Acredito que a Matemática existe e o homem a descobre em grande parte pela transpiração e, em menor medida, por inspiração. Hoje, entretanto, Dia da Matemática, quero reconhecer a humanidade desta senhora do abstrato. Não a humanidade em sua essência, mas em seus efeitos e relações.
Nenhum de nós será exatamente o que era antes desta pandemia. A realidade nos impõe um aprendizado genuíno que a teoria apenas tangencia. Fico imaginando como será minha sala de aula quando retornarmos. Não pelas medidas profiláticas que seremos forçados a adotar, mas pelo novo valor que daremos a cada momento juntos.
Embora continue considerando importante o saber explicar um conceito pelo “telefone”, quero poder voltar a ver as dúvidas e certezas nos olhos dos alunos, quero escutar mais do que as perguntas e respostas, quero saber como eles estão. Espero vê-los crescer não só matematicamente, mas em sabedoria e generosidade por uma sociedade que espera por eles.
O autor é professor e Mestre em Matemática