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É economista; auditor de Finanças na Sefaz-ES e professor da Fucape Business School

Quem paga a conta do diesel artificialmente barato?

Combustível barato por canetada não é milagre econômico. É apenas uma escolha política sobre quem pagará uma conta que continua existindo, ainda que longe dos olhos do eleitor

  • Eduardo Araujo É economista; auditor de Finanças na Sefaz-ES e professor da Fucape Business School
Publicado em 16/03/2026 às 15h30

Toda vez que uma guerra empurra o preço do petróleo para cima, governos enfrentam o mesmo teste. Podem deixar o choque chegar à bomba ou tentar amortecer seus efeitos com menos imposto, subsídios e outras intervenções. Em medida recente, o governo federal zerou PIS/Cofins sobre o diesel, criou subvenção para produtores e importadores e elevou para 12% o imposto de exportação sobre o petróleo. A promessa é simples e politicamente poderosa: reduzir em R$ 0,64 por litro o preço final do combustível.

O incentivo político da decisão é evidente. Combustível caro não pesa apenas no bolso. Ele rapidamente vira símbolo de inflação, perda de renda e desorganização econômica. Em países como o Brasil, onde o frete rodoviário tem peso central e grupos como os caminhoneiros possuem capacidade real de pressão, o preço do diesel também se converte em risco político.

Para o governo, suavizar essa alta não significa apenas aliviar um custo. Significa reduzir atrito com grupos organizados, conter um foco visível de insatisfação e transmitir capacidade de proteção no presente.

Edifício sede da Petrobras
Edifício sede da Petrobras. Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

O mecanismo econômico da medida também é claro. Ao cortar tributos e conceder subvenção, o governo tenta reduzir o repasse imediato do choque do petróleo para o frete, os alimentos e os demais preços da economia. Se esse alívio chegar ao consumidor, a pressão sobre a inflação perde força, o ambiente para juros menores fica menos hostil e o crescimento sofre menos. Em outras palavras, a aposta é ganhar tempo. O objetivo não é eliminar o choque, mas impedir que ele contamine rapidamente toda a economia.

Há aí um mérito que precisa ser reconhecido. Do ponto de vista fiscal, a solução é mais cuidadosa do que simplesmente desonerar combustíveis sem indicar fonte de compensação. O governo procurou explicitar quem financiaria o alívio no curto prazo, deslocando parte da conta para a exportação de petróleo. Isso é melhor do que espalhar o custo de forma implícita e difusa. Mas isso não transforma a medida em solução sem custo. Ela continua sendo uma transferência, que tira de um lado da cadeia do petróleo para aliviar o outro.

É nesse ponto que a pergunta do título encontra resposta mais clara. Se a engenharia funcionar como prometido, uma parte importante da conta será paga pelos produtores e exportadores de petróleo bruto, entre eles a Petrobras, mas não só ela, além de seus acionistas, que passam a absorver renda líquida menor. Isso pode ser defensável como resposta temporária a um choque externo.

O problema começa quando esse arranjo deixa de ser ponte e passa a funcionar como solução prolongada. Nesse caso, o custo deixa de aparecer apenas como perda de renda no presente e passa a afetar decisões de prazo mais longo, como investimento, planejamento de oferta e avaliação de risco regulatório no setor.

Economias maduras não são as que impedem qualquer repasse de choques internacionais. São as que enfrentam esses choques com regras claras, temporariedade, focalização e honestidade sobre quem financiará o alívio. Pode haver momentos em que amortecer a alta do diesel seja defensável, sobretudo para evitar uma pressão inflacionária mais ampla. Mas combustível barato por canetada não é milagre econômico. É apenas uma escolha política sobre quem pagará uma conta que continua existindo, ainda que longe dos olhos do eleitor.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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