Cariê Lindenberg*
Foram ágeis, surpreendentemente mudos, os debates técnicos que feriram mortalmente a ainda frágil pecuária leiteira do Brasil. Difícil determinar a extensão deste tsunami por ora imposto pelo governo. Declaro-me ainda inexperiente no assunto, até porque no passado abandonei o setor quando, de início, constatei logo que carecia do imprescindível amor e da suficiente paciência para suportar os constantes aborrecimentos que a complexa atividade embute. Para seguir o manual gasta-se mais do que uma fortuna...
No passado longínquo, ouvi de meu pai, um dos fundadores da Selita, em Cachoeiro de Itapemirim, os frequentes reclamos daquela instituição que enfrentou e venceu galhardamente a concorrência das congêneres, das quais deve-se ressaltar a tida como “poderosa” e certamente impertinente CCPL – Cooperativa Central dos Produtores de Leite. A Selita e igualmente outras disputaram sua vida ainda com as da iniciativa privada, como a Parmalat, que também estorvava com força a vida de nossas cooperativas, notadamente a de Nova Venécia.
Assisti sempre emocionado e esperançoso ao nascimento de novas cooperativas que, eventualmente, em face da qualidade de suas administrações, acabaram fechando e transferindo o prejuízo de seus desmandos aos remediados produtores cooperados. Assim é a lei... Desse drama foi exemplo a Camil, de Linhares, município de escolha de nossa família para atuar no campo rural.
Sendo o leite um produto essencialmente nutritivo e imprescindível às crianças, foi muito vigiado pelos governos, que cumpriram o seu primário dever de manter o acesso ao produto para todos. A cena final que me lembro por conta de minha passagem pela Federação da Agricultura foi a confraternização dos dirigentes das cooperativas quando a CCPL faliu, levando à sepultura uma concorrência imprópria, impertinente e inexplicável. Ela se propunha a ser a cooperativa-mãe das cooperativas.
A providência fatal adotada agora pelo governo em relação ao leite esgueirou-se de qualquer debate e também não homenageou o imprescindível diálogo. Aparentemente, legislou-se em favor de forças ocultas que, instantaneamente, aniquilarão os secularmente sofridos pecuaristas brasileiros. Isso, como consequência, interromperá ainda a nascente evolução tecnológica do setor, que responde morosamente à modernidade, por conta de seus seculares restritos resultados financeiros, de nossa cultura ainda elementar no assunto e principalmente à mercê do clima preponderante em nosso país. Ele não propicia a criação das raças europeias “taurinas”, efetivamente muito mais leiteiras. Não há como concorrer com países com climas mais propícios para a atividade, cujos governos, adicionalmente, até mesmo subsidiam financeiramente seus produtores, ao contrário da postura vigente com os produtores brasileiros.
Há presunção de que as indústrias derivadas do leite, nacionais ou não, bem como as que certamente se instalarão agora vão deitar e rolar, engravidando através dos incentivos externos acrescentados aos seus já confortáveis lucros, cavalgando confortavelmente no pelo dos nossos produtores e consumidores, sem qualquer esforço adicional. O simbólico preço do leite de hoje no país foi premiado com um rápido e certeiro locaute; os produtos lácteos industrializados não terão preço reduzido, e os produtores brasileiros voltarão a penar outra vez, vendo aviltados os seus preços costumeiramente defasados.
*O autor é empresário