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Artigo de Opinião

Conscientização

Por que razões somos um país que não tema cultura de doar sangue?

Campanhas pontuais são feitas para corrigir os baixos estoques de sangue, bem como estratégias individuais de sensibilização, mas essas políticas se mostram ineficientes

Publicado em 13 de Junho de 2019 às 16:15

Publicado em 

13 jun 2019 às 16:15
Doação de sangue
Elda Bussinguer e Arthur Leal Abreu*
Neste dia 14 de junho, em que comemoramos o Dia Mundial do Doador de Sangue, somos convidados a refletir sobre as razões de vivenciarmos enormes dificuldades para manter níveis mínimos de sangue, capazes de atender às necessidades de saúde da população. Os bancos de sangue lutam para administrar estoques que permanecem, quase sempre, no patamar inferior, quando comparados às demandas dos serviços de saúde.
Campanhas pontuais são feitas no sentido de corrigir essa deficiência, bem como estratégias individuais de sensibilização, quando pessoas próximas precisam de sangue. Essas políticas se mostram ineficientes, já que não constroem uma cultura de doação habitual, baseada no princípio constitucional da solidariedade. Práticas de reposição pontuais de estoques não garantem o direito à saúde e à vida de forma integral e universal.
No Brasil, apenas 1,8% da população é doadora de sangue, o que não atende aos parâmetros internacionais, que preconizam índice médio de 3% a 5%, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS). As políticas pontuais, hoje adotadas no Brasil, não são capazes de alcançar esses percentuais.
Políticas de incentivo à doação precisam buscar estratégias simplificadas e mais efetivas, que não se baseiem em uma visão utilitarista, que estimule as doações por meio da concessão de benefícios como contrapartida. Além disso, não podemos ser tocados apenas pela necessidade de pessoas a nós vinculadas por laços de parentesco ou afeto, fazendo-lhes doações direcionadas.
Ainda que essas políticas possam ser adotadas, resguardando-se a garantia de não violação de Direitos Fundamentais, há experiências exitosas, já implementadas em países como Suécia e Inglaterra - e trazidas para Estados brasileiros, como é o caso do Rio de Janeiro -, que poderiam ser adotadas como políticas públicas inovadoras e de baixo custo, com vistas ao estabelecimento de uma nova cultura, baseada na solidariedade social.
Encaminhar uma mensagem de texto, via celular, informando ao doador que, naquele momento, o sangue que doou foi utilizado para salvar uma vida, pode parecer inócuo e singelo demais para uma política pública.
No entanto, as estatísticas demonstram um aumento de 30% de doação e fidelização por parte desses doadores, que puderam ver, na prática, o resultado de um simples ato de solidariedade. Assim, os avanços tecnológicos e a sensibilidade humana revelam-se como aliados no esforço para salvar vidas. Já é hora, portanto, de colocar essa ideia em prática no Espírito Santo.
*Os autores são, respectivamente, doutora em Bioética e coordenadora do mestrado e doutorado da FDV; mestrando em Direitos e Garantias Fundamentais na FDV
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