Vinícius Figueira*
Todo ano, durante a Quaresma, a Igreja do Brasil, a CNBB, coloca diante dos fiéis um tema para “latejar” na mente do povo católico, baseado no princípio da conversão, ou seja, um sintoma ou problema social que tende a ser sanado e transformado. Para este ano, a Igreja escolheu o tema das Políticas Públicas como proposta da Campanha da Fraternidade.
Pode parecer uma afronta, neste tempo em que vivemos, ouvirmos a palavra política dentro da Igreja, principalmente porque há quem diga que os dois não devem se misturar. Mas vale lembrar que Jesus foi entregue para ser morto na cruz pelos poderosos e políticos da época, simplesmente porque nadou contra a corrente das tradições e escolheu quem fora rejeitado.
Ao pregar o direito e a justiça, Jesus escolheu os pobres para cuidar, ouviu os que estão às margens do caminho e deixou-se tocar por eles. Em tempos de lideranças vazias no cenário político, se torna mais que oportuno debruçarmo-nos neste tempo de Quaresma para contemplar o crucificado, e assim deixarmos nos inquietar pelo desejo de envolvimento com as causas de políticas públicas que nos circundam.
A Campanha da Fraternidade deste ano deseja clarear que política pública não é somente uma ação de governo, mas também a relação entre as instituições e os diversos atores, sejam individuais ou coletivos, envolvidos na solução de determinados problemas. O objetivo maior das políticas públicas sempre será o motivo maior do Evangelho, “para que todos tenham vida”! (cf. Jo 10,10).
Enfim, estamos inseridos num tempo em que as redes sociais nos transformaram em líderes de opinião, até da que não tivemos condições de formar com fundamentos, e isso tem sido interpretado como uma forma coerente de discutir política.
Quando saltamos os olhos para os conselhos, audiências e sessões, notabilizamos um tremendo vazio de participação popular. Porém, nas redes sociais, um enorme enredo de conversas infundadas e, por vezes, agressivas oprime o outro com inverdades e violência.
Que neste tempo de Quaresma brote em nossos corações o desejo de pertencer às decisões da gestão pública, participando ativamente de audiências e sessões, e que mesmo parecendo um sacrifício, tem tudo a ver com esse período.
*O autor é graduado em Comunicação Social e pós-graduando em Influência Digital na PUC-RS