
Henrique Geaquinto Herkenhoff*
Dentre as muitas modalidades de atuação da PM, espera-se que o leitor jamais tenha visto o policiamento velado, isto é, aquele realizado com agentes à paisana, sem farda ou qualquer outro elemento que o identifique, porque a intenção é que o policial se misture entre as pessoas e sua presença não seja notada pelo meliante, facilitando sua prisão em flagrante.
Se for o caso, serão utilizadas viaturas também descaracterizadas com os serviços de inteligência, cuja função é apenas obter informações para orientar futuras operações, de modo que apenas em casos extremos o agente se identifica e realiza alguma prisão.
Esta modalidade é pouco utilizada, porque só é eficaz quando existe alta probabilidade de ocorrência de um crime dentro de um espaço e de um período bem limitados. Neste caso, se o criminoso percebesse a presença do policial simplesmente adiaria sua ação. São várias as desvantagens, no entanto: perde-se aquele efeito dissuasório geral e a sensação de segurança que a presença ostensiva da PM pode trazer; o consumo de efetivo é muito grande, já que o policial não pode se deslocar para fora da área onde se supõe que haverá um crime; se esse crime não acontecer, o esforço terá sido completamente frustrado; sempre existe necessidade do apoio de outros policiais e viaturas etc.
A escolha desta ou daquela modalidade de policiamento precisa ter em conta a adequação às condições geográficas e climáticas, ao tipo de crime que se quer evitar, mas, principalmente, à relação entre o custo e o benefício que racionalmente se podem prever. Felizmente, já foi o tempo em que os soldados da PM ganhavam menos de 100 dólares por mês e muitos não eram sequer alfabetizados; ocorre que, se os ganhos salariais melhoraram muito a capacidade desses profissionais, de outro lado tornaram desastrosas quaisquer decisões que não levem em conta os gastos econômicos envolvidos.
Outra questão é que, mesmo não se confundindo com os serviços de inteligência, trata-se de uma tarefa muito perigosa e que exige treinamento específico, para que o policial realmente não seja “plotado” e, além de estragar a operação, torne-se alvo de agressões.
Por tais razões, policiais à paisana são utilizados uma vez ou outra na segurança de dignitários, em alguns eventos públicos etc., mas nunca serão uma tática preferencial ou uma solução de largo emprego.
*O autor é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV