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Artigo de Opinião

Tarcísio Faustini

Obra musical de Ataulfo Alves vai muito além da hoje famigerada Amélia

Na famosa polêmica musical que envolveu o casal Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, Ataulfo defendeu o lado feminino em duas canções: "Errei sim" e "Fim de comédia"

Publicado em 18 de Abril de 2019 às 22:54

Publicado em 

18 abr 2019 às 22:54
Ataulfo Alves Crédito: Reprodução
Tarcísio Faustini*
Hoje se completam 50 anos da morte do compositor mineiro (de Miraí) Ataulfo Alves, cuja obra musical vive em todas as rodas nas quais se quer “morrer numa batucada de bamba” (“Na cadência do samba”, de Ataulfo, Paulo Gesta e Matilde Alves). Esse sucesso vem desde os anos 1960, registrado por muitos intérpretes, inclusive pela roqueira Cassia Eller nos anos 1990, mas o trabalho do compositor começou a se destacar em 1933, quando gravado por Carmem Miranda, cantora que ele até então conhecia como Maria do Carmo, freguesa na farmácia carioca onde atendia.
Ataulfo foi precursor sob diversos aspectos. Nos anos 1940, durante a ditadura Getúlio Vargas, o Departamento de Imprensa e Propaganda passou a incentivar a criação de sambas exaltando o trabalho e condenando a malandragem, tema até então recorrente. Um dos primeiros sambas assim foi “O bonde de São Januário”, de Ataulfo com Wilson Batista: “O bonde São Januário leva mais um operário, sou eu que vou trabalhar”. Conta-se que a paródia era do próprio Wilson, flamenguista: “O bonde São Januário leva um português otário pra ver o Vasco apanhar”.
Naquele tempo, não era comum os compositores gravarem suas canções, tarefa exclusiva dos cantores e intérpretes. Como nenhum deles aceitara seu novo samba, feito com Mário Lago, o próprio Ataulfo gravou “Ai que saudades da Amélia”. Amélia era mulher de verdade, não tinha a menor vaidade e achava bonito não ter o que comer. Isso aconteceu em 1942 e o samba levou aos dicionários a palavra “amélia”, significando “mulher que aceita toda sorte de privações e/ou vexames sem reclamar, por amor a seu homem” (conforme o “Aurélio Eletrônico”).
O cantor e compositor Mário Lago, morto em 2002, foi parceiro de Ataulfo em "Ai! Que Saudade da Amélia" Crédito: Reprodução
Com o advento do feminismo, ser amélia tornou-se politicamente incorreto, apesar de a música ter sido bem aceita pelos jovens de então, gravada por Roberto Carlos e apresentada pelo autor no programa Jovem Guarda. Mas ela inspirou também duas canções provocantes. A primeira é “Amélia de você”, de Elena e Eliane de Grammont, gravada por Angela Maria em 1978, com os versos “Tentei mudar você / não consegui porque / nasci pra ser Amélia de você”. Outra é de Quincas e Chiquinho Modesto, gravada em 1999 pela Velha Guarda de Mangueira, com solo de Quincas: “Amélia não passa mais fome”. Agora, Amélia “está comigo / hoje mora no meu barracão / tem passado bem de boca / não vai mais no tanque lavar roupa / melhorou de situação”. No final da gravação, entra a voz de Mário Lago dizendo “casa, carinho, automóvel para Amélia você deu, mas na hora dos finalmente, com licença, eu sou mais eu”. Perdoem-me, leitoras, estou só transcrevendo. Nem vou citar “Mulata assanhada”.
O cantor Louis Armstrong, o presidente Juscelino Kubitschek e o cantor Ataulfo Alves Crédito: Reprodução
Ataulfo inovou também na indumentária, porque em vez de roupas de malandro, típica dos sambistas, usava ternos finos e foi até eleito um dos dez mais elegantes no concurso promovido pelo colunista social Ibrahim Sued. Além disso, durante muitos anos cantou com três cantoras, no grupo “Ataulfo Alves e as Pastoras”.
Na famosa polêmica musical que envolveu nos anos 1950 o casal Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, Ataulfo defendeu o lado feminino em duas canções: “Errei sim” e “Fim de comédia”.
O último parceiro de Ataulfo foi o cachoeirense Carlos Imperial, com quem ele fez os sambas “Você passa eu acho graça", "Você não é como as flores" e sua última música, "Mandinga", concluída pelo parceiro e, assim como as outras duas, gravada pela também mineira Clara Nunes.
Para quem quer conhecer ou recordar as canções do mestre Ataulfo, há muitas gravações disponíveis em CDs ou plataformas digitais. Boas opções com diversos intérpretes atuais são os CDs “Ataulfo Alves - Leva meu samba”, de 1999, e "Ataulfo 100 Anos", de 2009. Esse é duplo e tem 32 canções. Muito bom também é o CD "Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - pra sempre agora", de 1995, no qual o cantor e compositor paranaense, expoente da vanguarda paulistana, se rende à cadência do sambista mineiro nascido há 110 anos que serão completos em 2 de maio próximo.
*O autor é pesquisador musical
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