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Artigo de Opinião

Cristiano Hehr Garcia

O diabo veste farda?

Todo militar que assumiu pastas no governo têm experiência administrativa. É justo que o país aproveite esse capital intelectual

Publicado em 23 de Janeiro de 2019 às 19:55

Publicado em 

23 jan 2019 às 19:55
Governo de Jair Bolsonaro e a militarização da administração pública
Cristiano Hehr Garcia*
O ano de 2019 começou com Jair Bolsonaro descendo do palanque e subindo a rampa do Palácio do Planalto. Aos poucos, o candidato se tornou o presidente da República. Os desencontros administrativos das primeiras semanas e a postura dos novos ministros têm ocupado um grande espaço na mídia.
Nesse ambiente, uma questão é digna de análise: a militarização da administração pública. Tanto em âmbito federal como nos Estados é digno de nota a quantidade de militares que assumiram cargos na administração que normalmente eram destinados a civis. Na gestão Bolsonaro, os militares, que desde o período militar estavam discretamente lotados em áreas relativas à defesa e à segurança, passam a assumir pastas de outras áreas da administração. Para segmentos da sociedade, tal “militarização” é vista com desconfiança, um risco de retorno à ditadura. Para outros, tal iniciativa é salutar porque representa a “volta da moralidade”.
No entanto, sem adentrar no mérito das duas teses acima, e sem juízo de valor sobre o resultado eleitoral, há um ponto que, por questão de justiça, não posso deixar de comentar. Ministros não se formam ministros, secretários não se formam secretários. Tivemos e temos ministros e secretários das mais diversas áreas profissionais, por que não militares?
Há anos advogo para militares e, além disso, em termos acadêmicos, escrevi tese sobre o tema. Fruto destas duas experiências, posso apontar características dos militares que em geral podem contribuir, e muito, para a melhora da gestão da coisa pública, isso, claro, sem desmerecer outras carreiras profissionais.
O que os críticos esquecem é que a carreira exige do militar aprimoramento intelectual permanente, e aquele que resiste a essa exigência simplesmente não prospera na carreira. Desde praças até oficias superiores, os cursos de aperfeiçoamento são constantes e periódicos. Aqui não é o espaço, mas como exemplo desta proposição basta olhar para as exitosas universidades e escolas militares, que mesmo não deixando de serem quartéis, se destacam no quesito excelência.
Nos quartéis, os protocolos são seguidos para que não haja desperdícios de tempo e recursos. Os prazos são cumpridos e metas cobradas. Como são balizados pela hierarquia e disciplina, os militares atribuem aos seus afazeres o sentido de missão e buscam realizá-la da melhor forma possível.
Todos militares que assumiram pastas no governo têm experiência administrativa, profundo conhecimento do Brasil e muitos anos de estudos financiados pelo Tesouro. É mais do que justo que o país aproveite todo esse capital intelectual em prol de todos, até porque foi investido tempo e dinheiro público em suas formações.
É claro que o ethos militar é próprio da caserna, e seria inconcebível impor às repartições públicas regimes tipicamente espartanos, mas é chegada a hora de deixarmos de olhar os militares com desconfiança para que todos, civis e militares, façam este país funcionar melhor.
*O autor é doutor em Sociologia Política, mestre em Políticas Públicas e Processo, pós-graduado em Direito Internacional, graduado em História e Direito
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