
Antônio Carlos de Medeiros*
O capitalismo está em busca de adaptação ao mundo 4.0. O da geração dos millennials (nascidos entre 1981 e 1996) e da geração Z (nascidos a partir de 2001). Juntas, estas duas gerações já representam 63,5% da população mundial. Com formas de agir e pensar diferentes da ética do trabalho, do consumo e da acumulação de bens das gerações anteriores.
Este não é um debate acadêmico. A experiência recente de Brumadinho, e tantas outras pelo mundo afora, são apenas pequenos exemplos da necessidade do capitalismo se reinventar mais uma vez - como, de resto, vem fazendo desde a revolução industrial. A fórmula da mutação constante do capitalismo é simples: sem consumo de bens e serviços - isto é, sem mercado - e sem competição, ele não sobrevive. Mudar, portanto, é vital.
É assim desde a máquina a vapor. Agora, estão chegando os algoritmos. Andrew Edgecliffe-Johnson, do “Financial Times”, argumenta que o capitalismo está no divã, para ir além do foco nos lucros. Está saindo da fase da narrativa de Milton Friedman - a do consenso do lucro acima de tudo, com a primazia do acionista e do executivo, que definiu o capitalismo anglo-saxão por 50 anos até a crise de 2008. Entrando na fase da narrativa de Larry Fink da BlackRock, líder mundial em gestão de US$ 6,4 trilhões de ativos.
Fink defende - baseado em hábitos de investidores, inclusive os millennials -, que as empresas ofereçam não apenas lucros financeiros, mas também contribuição positiva para a sociedade, olhando clientes e consumidores, além de acionistas e executivos. Ter propósito social. Sem isso, sem gerar benefícios sociais e ambientais, as empresas fracassam e o capitalismo dá marcha à ré. Investidores institucionais estão aderindo à narrativa de Fink. As bolsas de valores também. Ao mesmo tempo em que este debate rola nas catedrais do capitalismo, como Davos, surge também a constatação empírica de que o capitalismo está perdendo, nos Estados Unidos e nas principais economias, a sua natureza competitiva. Está cada vez mais monopolista, o que poderá ser um tiro no pé.
Capitalismo sem competição não é capitalismo, argumentam Jonathan Tepper e Denise Hearn (em “The Myth of Capitalism”). Sem competição, concluem, os monopólios provocam desigualdades sociais e danos ambientais. Já estão causando quedas nas taxas de crescimento. Este não é um debate trivial. Há um efeito regressivo que provoca desigualdades (vide EUA) e insustentabilidade ambiental (China). Coloca o sistema capitalista sob novo imperativo de reinvenção. Os millennials e a geração “Z” vão tornar, aos poucos, esta reinvenção imperativa. São gerações que buscam outro estilo de vida, para além do modelo de desenvolvimento baseado apenas em expansão do PIB e consumo material. Este modelo já está se mostrando insustentável. O que virá? Volto ao tema.
*O autor é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and a Political Science