
Vitor de Angelo*
Atribui-se a Benjamin Disraeli, ex-primeiro-ministro britânico do século XIX, a máxima segundo a qual, no mundo, existiriam apenas três tipos de mentira: a mentira, a mentira deslavada e a estatística. Em outras palavras, os números, quando bem trabalhados, podem nos dizer qualquer coisa – mesmo que algo bem diferente da realidade a que se referem.
Nos últimos tempos, utilizando-se largamente de dados estatísticos, muitos buscaram ressaltar a qualidade da educação capixaba no cenário nacional. De fato, sob alguns aspectos, o Espírito Santo apresenta resultados positivos quando comparado ao restante do país. Isso é produto da ação continuada de sucessivos governos, nesta área em que resultados muito dificilmente aparecem no curto prazo, como consequência de políticas implementadas por um governante em particular.
Mas o uso indiscriminado dos números acaba por apresentar um cenário que, na prática, para grande parte daqueles que usam o sistema estadual de ensino, está muito distante de sua verdade cotidiana. A excessiva publicidade em torno desses dados, por sua vez, também gera um perigoso desengajamento em relação aos problemas da educação pública capixaba, que ainda são muitos, e grandes.
A título de exemplo, em 2018, muito se comemorou o resultado da aprendizagem em Português e Matemática dos alunos da rede estadual, o que colocou o ensino médio do Espírito Santo como o melhor do Brasil. Por outro lado, nada foi dito sobre o fato de que, em Matemática, somando-se o desempenho considerado ruim e péssimo dos alunos concluintes do ensino médio, o Estado chegou a alarmantes 91%. Como referência, isso significa que 91% dos estudantes do último ano da educação básica não conseguiram resolver uma questão envolvendo regra de três.
Em Português, o resultado, embora melhor, também é muito preocupante. Os dados mais atuais do Ministério da Educação revelam que, no Espírito Santo, 65% dos alunos do 3º ano do ensino médio das escolas públicas têm desempenho abaixo daquilo que é considerado adequado. Foram esses os resultados, em Português e Matemática, celebrados no ano passado como sendo os melhores do país.
Em se tratando de políticas públicas, é fundamental que as ações estejam pautadas sempre em evidências. Nesse sentido, é claro, a estatística tem papel fundamental para subsidiar o gestor quanto à melhor decisão a tomar no enfrentamento dos problemas identificados. Porém, sua premissa básica sempre deve ser a de assumir o que está diante de si. No caso da educação, o horizonte é desafiador, e reconhecer esse fato evidenciado em números é o ponto de partida para mobilizar a todos em torno dessa agenda tão importante para o Espírito Santo e para o Brasil.
*O autor é professor e secretário de Estado da Educação do Espírito Santo