Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

  • Início
  • Artigos
  • Notre-Dame ou África? Seletividade reduz a vida humana a cifras

Artigo de Opinião

Ajuda humanitária

Notre-Dame ou África? Seletividade reduz a vida humana a cifras

A comparação revela muito sobre como nossa sociedade anda cada vez menos fraterna, e cada vez mais seletiva

Publicado em 24 de Abril de 2019 às 20:21

Publicado em 

24 abr 2019 às 20:21

Vítimas do Ciclone Idai, que atingiu Moçambique, Zimbábue e Malawi

Julio P. F. Homem de Siqueira e Schamyr Pancieri Vermelho*

A crítica que circulou, na última semana, nas redes sociais, sobre doações para reconstruir a Catedral de Notre-Dame de Paris em comparação com doações para ajudar as vítimas do ciclone tropical e das enchentes em Moçambique, Malawi, Zimbábue e África do Sul trouxe à tona uma pergunta importante: o que é mais importante, a vida ou o patrimônio? O pano de fundo da crítica diz respeito ao volume de recursos financeiros arrecadado em comparação com o tempo desde o fato. Por um lado, o incêndio que atingiu a catedral francesa ocorreu no dia 15 de abril e, dois dias depois, as doações já superavam os R$ 3 bilhões. Por outro lado, os desastres naturais que atingiram os países africanos ocorreram no início de março, tendo as doações atingido, em 17 de abril, R$ 122 milhões.

A resposta à pergunta formulada depende, sempre, da vida de quem e do patrimônio de quem estamos falando. A reconstrução do Museu Nacional brasileiro, que incendiou no início de setembro de 2018, recebeu até agora R$ 1,1 milhão em doações. As doações após o furacão Katrina, que passou pelos EUA em 23 de agosto de 2005, totalizaram, no início do mês seguinte, mais de R$ 2 bilhões, mais de 16 vezes o valor arrecadado nos desastres com os países africanos. A comparação revela muito sobre como nossa sociedade anda cada vez menos fraterna, e cada vez mais seletiva. Antonio Domenèch, ativista espanhol falecido em 2007, dizia que “a fraternidade é o parente pobre da tríade democrático-republicana moderna”. E a sua pouca visibilidade demonstra como o material (patrimônio) tem tido maior preferência em relação ao imaterial (vida).

É grande a disparidade quanto à aplicação prática dos direitos humanos em tragédias naturais em países desenvolvidos (Furacão Katrina) e subdesenvolvidos (Ciclone Idai e Furacão Matthew). A nossa conclusão foi a de que, embora nas três situações haja seres humanos envolvidos, há uma seletividade implícita, uma vez que a vida de cada indivíduo fica reduzida aos interesses econômicos dos países e entidades doadores, o que influencia, sobremaneira, a ajuda humanitária. Portanto, pode-se dizer que tanto o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) quanto os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) têm sido mais efetivos no papel e no discurso (retórica) que na prática, assim como o patrimônio e as pessoas vítimas de desastres e/ou conflitos em países desenvolvidos são mais importantes que as pessoas vitimadas em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. A realidade é dura, mas é factível.

*Os autores são, respectivamente, mestre e graduanda na FDV

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados