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Artigo de Opinião

Racismo

No país do samba, 71,5% das pessoas assassinadas são negras

Quantos talentos são desperdiçados, destruídos, assassinados, em nome do preconceito e da marginalização das regiões mais pobres?

Publicado em 15 de Março de 2019 às 02:11

Publicado em 

15 mar 2019 às 02:11
Crédito: Pixabay
Cristina Fagundes de Almeida*
“Samba / Negro, forte, destemido / Foi duramente perseguido / Na esquina, no botequim, no terreiro”
Os versos acima, da canção “Agoniza, mas não morre”, de Nelson Sargento, mostram o entrelaçamento das histórias do negro e do samba em nosso país. Do canto dos escravos para aliviar dor e cansaço na lavoura às reuniões nas casas das “tias baianas”, das rodas de samba aos desfiles das escolas, o ritmo vem atravessando séculos não apenas como expressão cultural, mas modo de resistência e afirmação.
Negros que trabalhavam na estiva e sofriam castigos físicos criaram, em 1905, a Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, atual Sindicato dos Estivadores do Estado do Rio de Janeiro. Os líderes dessa entidade e portuários a ela filiados fundaram o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Prazer da Serrinha - antecessora da Império Serrano.
Fora da zona portuária, cortiços, subúrbios, morros e favelas, o samba sempre esteve associado à malandragem ou vadiagem. Que o diga Heitor dos Prazeres (1898-1966), compositor de mais de 300 músicas. Passou temporada atrás das grades, na Ilha Grande, por “vadiagem”.
João da Baiana (1887-1974), vizinho de Heitor na antiga Praça XI, na Cidade do Rio de Janeiro, igualmente negro, também chegou a ser preso e teve apreendido seu pandeiro (foi ele o introdutor desse instrumento no samba).
Se, hoje, pandeiros brilham nos sambódromos, um simples guarda-chuva na mão de um negro pode ser confundido com um fuzil. Foi essa a justificativa do policial militar que matou a tiros um morador da Favela Chapéu Mangueira, na Zona Sul da capital carioca.
O último Atlas da Violência, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Nacional de Segurança Pública (FNSP), aponta: 71,5% das pessoas assassinadas no Brasil são negras. E o risco de um jovem negro ser vítima de homicídio por aqui é 2,7 vezes maior que o de um jovem branco.
No período de uma década (2006-2016), a taxa de homicídios entre negros cresceu 23,1% - entre não negros, diminuiu 6,8%. “É como se, em relação à violência letal, negros e não negros vivessem em países completamente distintos” - diz o relatório.
O rapaz morto com guarda-chuva trabalhava como garçom. Poderia ser sambista - quem sabe, não o era nas horas vagas? Quantos talentos são desperdiçados, destruídos, assassinados, em nome do preconceito e da marginalização das regiões mais pobres, muitos delas consideradas o “berço do samba”.
*É jornalista e servidora da Justiça do Trabalho
 
 
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