
Henrique Geaquinto Herkenhoff*
Estejam ou não corretas as autoridades sobre quem teria executado a vereadora carioca Marielle Franco, a investigação divulgada mostra que não existe, mesmo, crime perfeito. Mostra, por outro lado, que nada na segurança pública ocorre no tempo em que a população almeja, a imprensa cobra e o próprio policial deseja. Tudo não apenas é muito trabalhoso e demorado, mas simplesmente o ritmo e os resultados não estão sob o controle das polícias. Na verdade, uma das principais virtudes de um bom policial é justamente uma paciência infinita, para não se precipitar, mesmo sob intensa pressão.
Só as críticas, justas ou injustas, nos permitem melhorar, só as cobranças públicas orientam os governantes quanto às prioridades da população. Apenas não podemos esquecer, quanto entrosamento precisou haver entre várias instituições, como foi difícil manter o sigilo, quanta dedicação, quanto risco pessoal e quanta resignação foi necessária de cada policial envolvido neste caso, que precisou “fingir” que nada estava fazendo, enquanto era exigido em público.
Entretanto, não tem “pauta positiva” na segurança pública. Até a solução de um caso rumoroso se torna alvo de críticas. Haverá quem diga que as provas são frágeis, que a resposta foi demorada, que só ocorreu pela importância da vítima ou que não está completa sem a identificação dos mandantes... A polêmica é “do jogo”. Todos querem o melhor para o país, apenas não necessariamente concordam quanto ao que é bom ou não, suficiente ou não.
Cada vez que escrevo uma destas linhas ou dou uma declaração à imprensa, arrisco-me não apenas a desagradar a muitos, mas a estar realmente equivocado. O mesmo em sala de aula. Que fazer, entretanto? Não tratar de um tema tão importante? Resmungar sozinho ou entre amigos? Esconder ideias controvertidas? É como na própria ação criminal: o promotor, o advogado e o juiz não são inimigos, mas cada um tem um papel a cumprir na busca da verdade e da justiça; fora disto é a Inquisição.
Problemas graves exigem debates amplos e profundos e ninguém terá razão sozinho. A maior dificuldade tem sido justamente estabelecer uma discussão franca sobre a segurança pública, sem que as pessoas ou as instituições tomem divergências de ideias como ofensas pessoais, colocando racionalidade onde todos só põem o coração ou o fígado, congregando teses e antíteses no mesmo espaço, de onde possam surgir soluções em vez de rancores.
*O autor é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV