
Henrique Geaquinto Herkenhoff*
Tenho seguidamente manifestado meu ceticismo quanto ao potencial do patrulhamento preventivo como estratégia de redução da violência, mas cumpre registrar que existem diversos processos alternativos e direcionamentos que podem aumentar bastante sua efetividade, baixar seus custos etc. Um deles é o ciclopatrulhamento.
Um policial montado em uma bike tem um raio de ação muito maior do que a pé, embora menor do que em um automóvel. Sua velocidade também é média, o que se traduz em algumas vantagens importantes: maior percepção do entorno, audição sem interferências, maior interação com o meio ambiente e com as pessoas à sua volta. Por outro lado, o trânsito intenso das grandes metrópoles, que às vezes inviabiliza tanto o automóvel da polícia quanto o do criminoso, pouco afeta as bicicletas que, aliás, têm muitas alternativas, sendo fácil para elas passar por calçadas, fazer retornos e conversões etc. Em uma bicicleta você não vai perseguir um criminoso motorizado, mas terá grandes vantagens sobre quem esteja a pé.
Há outras grandes vantagens colaterais: o custo é muito menor do que qualquer outra modalidade, inclusive a pé (porque utiliza menos policiais para uma mesma área) e o exercício contínuo contribui para o preparo físico e para a saúde física e mental do policial. Há uma enorme sinergia com a filosofia do policiamento comunitário, para quem a defende, mas nem por isso o patrulhamento em bike tem qualquer problema com o pensamento policial tradicional.
Nem tudo são maravilhas, é claro: essa modalidade se adapta muito melhor a terrenos planos e ao piso regular, bem como às orlas das praias, e fica um tanto prejudicada nos dias chuvosos e nas aglomerações de pessoas. O policial também não tem como trazer consigo muito mais que uma pistola, algemas e um rádio, e certamente precisará de apoio para transportar alguém que venha a prender. Muito pouco, frente às vantagens quando o local se presta a esta modalidade. No entanto, por razões que ainda precisamos entender, essa modalidade parece não empolgar muito a Polícia Militar, e seu uso tem sido bem menor do que seria de prever: talvez haja outros problemas que não identificamos, ou talvez seja apenas uma resistência cultural, a falta de hábito. Bem, no mínimo este é um debate importante, até porque temos excelentes especialistas nos quadros da PM.
*O autor é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV