Sair
Assine
Entrar

  • Início
  • Artigos
  • Na política ou economia não existem isentos, somos todos ideológicos

Artigo de Opinião

Ideologia

Na política ou economia não existem isentos, somos todos ideológicos

E eis a minha tese: em matéria de ética (moral, direito, religião etc.), não existe o isento. Somos todos ideológicos

Publicado em 23 de Maio de 2019 às 18:55

Publicado em 

23 mai 2019 às 18:55
Ideologia
Gustavo Antonio Pierazzo Santos*
Existe um erro que tenho considerado um dos mais graves e presentes no debate político atual: o que venho chamando de isentismo. Trata-se da atitude de algumas das mais eminentes figuras públicas, que, julgando-se neutras moral e politicamente, acusam todo aquele que discorda de “ideológico”, portanto, um ser irracional, desprezível. Se pudessem, enxotariam todos os “ideológicos” da nossa jovem democracia.
E eis a minha tese: em matéria de ética (moral, direito, religião etc.), não existe o isento. Somos todos ideológicos. E porque o óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues, é justamente o que ninguém vê, ninguém vê essa obviedade, que não é mais nem menos que a fiel descrição do real.
Esses dias, eu observava o caso do jornalista Diogo Mainardi. Tornou-se célebre por dedicar mais de uma década a bater exclusivamente no PT, enquanto o partido esteve no poder. Quando perguntado, porém, se era antipetista, sempre disse que não. Perguntado se era liberal, também não, e se de direita, igualmente. Era “do contra”, dizia. E recorria, então, a um pensamento do Millôr, segundo a qual o jornalismo é sempre de oposição.
Pois bem. Passados os anos, o PT perdeu as eleições presidenciais, finalmente subindo ao poder um presidente que é um notório antipetista, assim como seu governo. O tal jornalista, no entanto, aparentemente deixou de ser “do contra” e agora apoia o governo. Mais precisamente, no caso, não o governo, mas sua ala considerada não-reacionária. E continua contra o PT, que agora é oposição.
A última dele foi a seguinte: ele vive reclamando que o Olavo de Carvalho, considerado por muitos o “guru da direita”, teria “dois ministérios”, segundo afirma. Diogo pensa que os ministérios deveriam ser “não ideológicos”. O que evidentemente significaria que ele e sua turma deveriam nomear todos os 22 ministros.
Contava isso tudo a um amigo quando almoçávamos pela rua, tentando demonstrar-lhe a inconsistência da isenção, e ele só dava risadas. Discordou e dispensou a minha tese sem a menor dificuldade. Disse-me: “a economia é isenta”. E começou a falar da China. “Negociar com a China, por exemplo. Uma urgência!”. Disse, ainda, que é isenção o “desenvolvimento”, o “crescimento” etc. etc.
Argumentei bastante, mas não chegamos a um acordo e deixamos o almoço assim. Indo embora, eu pensava sobre quantos ministérios deveriam ser dados ao mercado, à República Popular da China e ao Diogo Mainardi para que o governo pudesse ser finalmente isento e não ideológico.
*O autor é mestre em Direito pela FDV
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados