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Artigo de Opinião

Antônio Carlos de Medeiros

Movimento que elegeu Bolsonaro pode inaugurar uma nova ordem social

No coração da vitória de Bolsonaro está o apoio das famílias como instituição. É um ingrediente antropológico

Publicado em 20 de Janeiro de 2019 às 15:24

Publicado em 

20 jan 2019 às 15:24
Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante Reunião do Conselho de Governo
Antônio Carlos de Medeiros*
É possível que o movimento sócio-político que levou Bolsonaro ao poder venha a criar uma nova ordem social no Brasil. Parodiando Yuval Harari (em “Sapiens”), o presidente lidera a gestação de uma ordem imaginada alternativa, no “espírito de época” pós 2013.
Esta ordem imaginada resulta de movimento cultural, religioso, político e ideológico. São crenças em costumes, instituições e mitos partilhados. Os Estados Nacionais se baseiam em mitos nacionais partilhados. Harari diz que toda cooperação humana em grande escala se baseia em mitos partilhados que só existem na imaginação coletiva das pessoas. Estamos no prenúncio de uma Era Bolsonaro.
No coração da vitória de Bolsonaro está o apoio das famílias como instituição. É um forte ingrediente antropológico, sacado pela perspicácia de Luiz Carlos Azedo. Para ele, este fenômeno emergiu na campanha eleitoral como uma força popular subterrânea, mobilizada por católicos e evangélicos. Além disto, diz Azedo, o discurso contra a corrupção e a violência trouxe o apoio da classe média. “Bolsonaro promete um governo comprometido com a meritocracia, a honestidade e a eficiência”. É música para a maioria da sociedade, conclui Azedo.
Mangabeira Unger já identificava a chamada “nova classe média” como uma classe emergente que se tornaria uma força política. O discurso de Bolsonaro falou para a alma dos emergentes. Por isso, Mangabeira considera que a vitória dele não é uma onda autoritária. É uma busca por autoridade e por ordem, demandas dos emergentes. Ele inclui como emergentes “a pequena burguesia, em grande parte evangélica”, e “uma multidão de trabalhadores mais pobres, que assimilaram essa cultura de autoajuda e iniciativa. Eles são a vanguarda do povo brasileiro, agentes decisivos”- conclui Mangabeira. Outra grande sacada. Para Merval Pereira, “Bolsonaro entendeu o que se passava” na sociedade.
Os componentes da potencial construção de uma ordem imaginada alternativa, incluem a agenda liberal de Paulo Guedes, que atende a demandas crescentes na sociedade: menos governo e mais privatizações; desburocratização para simplificar a vida de quem empreende; mercados abertos; competição. Para a maioria da sociedade brasileira, expressa nas urnas, o progresso está numa ordem liberal, principalmente na economia.
Nos costumes, uma ordem liberal consistiria numa convivência plural. Há a maioria conservadora na opinião pública, que defende a família como instituição e mira na segurança familiar como um todo. Mas, além disto, o Brasil caminhou também para a liberdade na pauta identitária de gênero. É preciso conter regressões que estimulem ódio no plano dos costumes. Liberal também nos costumes. Evitar a tirania da maioria e o veto da minoria, regra de ouro da democracia que Paulo Guedes chamou de liberal democrata.
*O autor é pós-doutor em ciência política pela The London School of Economics and Political Science
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