*José Roberto Santos Neves
Não é nenhum exagero afirmar que Marcelo Yuka foi o poeta da sua geração. Fundador e mentor intelectual de O Rappa, o baterista e compositor representava a potência lírica de álbuns como "Lado B Lado A" (1999), que tem lugar no panteão dos discos mais influentes do pop dos anos 1990, ao lado de "Da Lama ao Caos" (1994), de Chico Science & Nação Zumbi.
Em "Lado B Lado A", Yuka descreve a atmosfera emocional de sua época ao retratar o distanciamento e as desigualdades dos dois polos que compõem a sociedade. Segundo ele, era do Lado B, das favelas, das comunidades e da periferia, das populações marginalizadas, enfim, que vinham as soluções mais inteligentes e criativas para a sociedade. Aparentemente revestidas de violência, no fundo suas canções falavam de amor - o amor ao próximo, generosidade, respeito, gratidão, equidade.
Crítico das elites, em "Minha Alma" ele chama a atenção para a sensação ilusória de segurança da classe média, encastelada nas "grades do condomínio que são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão".
Sempre presente em sua obra, o racismo é abordado de forma contundente no reggae "Todo camburão tem um pouco de navio negreiro", que relaciona a herança nefasta da escravidão com a abordagem policial à população negra.
Após o atentado sofrido em 2000 e a ruptura com O Rappa, Yuka montou o F.U.R.T.O (sigla para Frente Urbana de Trabalhos Organizados), onde teve a oportunidade de aprofundar o engajamento político e a independência artística, porém sem a mesma projeção da ex-banda.
Nos últimos anos, devido aos problemas de saúde, suas aparições públicas tornaram-se raras. Se bem o conhecemos, devia estar amargurado com o momento vivido pelo país. No entanto, ele teve tempo de nos deixar pelo menos mais dois trabalhos dignos de sua verve criativa: a autobiografia "No se Preocupe Comigo" (2014) e o álbum "Canções para Depois do Ódio" (2017), de viés otimista, cujo título representa uma esperança para todos os brasileiros que sofrem com a intolerância, o preconceito e a violência que dominam a sociedade contemporânea.
Como artista idealista e sonhador, Yuka vislumbrava um país mais feliz, justo e igualitário. Infelizmente, sai de cena no momento em que mais precisávamos dele. Descanse em paz, meu caro! Sua luta no foi em vão.
*José Roberto Santos Neves é jornalista, escritor e gestor cultural