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Artigo de Opinião

Manuela Castro

Luta contra o preconceito é importante para vencer a hanseníase

Quem já teve a doença, mesmo que há anos, ainda hoje sofre discriminação. A mudança do nome "lepra" para "hanseníase" foi uma tentativa de acabar com esse problema

Publicado em 04 de Abril de 2018 às 21:30

Publicado em 

04 abr 2018 às 21:30
Dar voz a quem não tem espaço de fala na sociedade é uma das bases da democracia. Eu descobri um grupo que não consegue jogar luz ao próprio passado e aos resquícios dele. Dados de 2016 mostram que o Brasil é o segundo país no mundo com o maior número de casos novos de hanseníase. Do total de 214.783 ocorrências reportadas à Organização Mundial da Saúde, o Brasil registrou 25.218. Só perdemos para a Índia. No entanto, se compararmos o número de casos com a população total dos países, o Brasil fica na primeira colocação.
Brasil é o segundo no mundo com o maior número de casos novos de hanseníase Crédito: Divulgação
Recentemente, quando fui lançar meu livro sobre as vítimas da doença, uma pessoa se aproximou com os olhos cheios d'água. Em voz baixa, confidenciou que um familiar viveu num leprosário. Esse assunto era um tabu e causa de muito sofrimento na família até hoje.
A cura da hanseníase foi descoberta nos anos 1940, mas os doentes permaneceram internados compulsoriamente no Brasil até 1986. Os leprosários eram verdadeiras prisões, onde a pessoa entrava para nunca mais sair, onde não mais teria contato com seus familiares. Uma mulher que engravidasse no isolamento tinha o filho arrancado do ventre às pressas, sem ao menos poder tocá-lo, para não transmitir a doença. A criança seguia para um orfanato ou para adoção.
Quem já teve a doença, mesmo que há anos, ainda hoje sofre preconceito. A mudança do nome “lepra” para “hanseníase” foi uma tentativa de acabar com esse problema. A doença não é bicho de sete cabeças. Tem cura. Nas primeiras doses do medicamento, deixa de ser transmissível. Os sinais são, geralmente, manchas na pele acompanhadas de diminuição da sensibilidade. No entanto, sem tratamento, gera sequelas que podem até ser incapacitantes.
Devemos falar sobre hanseníase. Os milhares de sobreviventes que trazem relatos comoventes sobre a vida nos leprosários clamam por isso. Quem defende a internação compulsória de dependentes químicos hoje precisa conhecer essa história. Todos devem saber da importância do diagnóstico precoce. As vítimas da hanseníase, do passado e do presente, querem mostrar que a verdadeira praga não é a doença e sim o preconceito.
 
*Manuela Castro é autora do livro "A Praga. O Holocausto da Hanseníase. Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos leprosários do Brasil". É apresentadora e repórter da TV Brasil.
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