Loco Abreu*
O Espírito Santo é um lugar maravilhoso. Mas é um Estado dividido: tem uma economia muito rica e um futebol muito pobre. Um contraste muito grande. Vejo isso aqui no futebol: quem faz alguma coisa diferente, querem derrubar. É o que aconteceu com o Rio Branco.
Infelizmente, percebi que muitos dirigentes agem com interesse político e não desejam evoluir. E ninguém fala nada, quando claramente todos sabem o que está acontecendo. O Rio Branco fez uma mobilização, um investimento bom, mas não teve a resposta que tinha que ter. Querem derrubar para falar depois: "viu que não adianta querer fazer diferente?".
Esquece esse papo furado de que o bom para o futebol capixaba é trazer jogador de nome. Bom para o futebol capixaba é ter investimento em estrutura. É ter investimento das empresas. É ter a televisão mostrando os jogos, e não os campeonatos do Rio, de São Paulo. Bom para o futebol capixaba é elevar a estrutura ruim que tem. Não precisa trazer o Loco Abreu para valorizar os jogadores daqui. Há jogadores muito bons, mas dê ferramentas para eles, com bons campos, respaldo na segurança, com exame antidoping, com o VAR nas finais, com sindicato para cuidar dos atletas.
Não adianta só contratar. É igual a ter um restaurante italiano e trazer o melhor cozinheiro, mas não dar a estrutura adequada para ele trabalhar. O cara vai fazer a massa do jeito que pode, porque as condições que ele tem na cozinha são ruins.
A qualidade dos jogadores você vê que tem. A técnica é boa, a vontade deles de crescer é grande, mas não estão dando o que ele mais precisa, que é estrutura para evoluir. E quase ninguém faz muita questão de se preocupar com isso. Eu reclamo para caramba. Os caras falam: "pô, o gringo é chato!" Mas sou um chato positivo, reclamando para melhorar para todo mundo, não para mim.
Eu ando pelas ruas, e as pessoas me agradecem por ter escolhido o futebol capixaba. Por ter escolhido o Rio Branco. Eu estou feliz aqui, aproveitando a cultura local, e percebo que o capixaba é um povo que tem uma vontade muito grande de ver o futebol do Espírito Santo em outro patamar. A minha questão não é ganhar ou perder um jogo importante, é realmente ter um futebol profissional, o que hoje está longe de ser. Quem perde é a futura e boa geração de crianças que sonham em chegar longe no futebol, sem saber que lá na frente vão encontrar pessoas que não são aptas para administrar o futebol e que vão cortar seus sonhos.
*O autor é jogador de futebol, atualmente em atuação no Rio Branco