Verônica Bezerra*
A morte precoce de uma ativista de Direitos Humanos impactou as redes sociais recentemente. Sabrina Bitencourt, vítima de violência, fez do seu luto a luta que culminou com a denúncia do caso João de Deus. Além de denunciar a sua própria dor, pavimentou o caminho para outras denúncias, encontrando estratégias para que a impunidade não grassasse. Ao lado das vítimas, se colocava por meio do acolhimento necessário no momento tão difícil; e frente aos poderes, construía formas de trazer à luz do dia, as mazelas de um sistema machista e misógino, que se reafirma na sombra das histórias mal contadas e relativizadas.
As violações de Direitos Humanos têm como locus as relações - de poder, de confiança, de trabalho, de família e de amor. Muitos ainda não concebem a violência como evento do cotidiano, e sempre tendem a colocá-la longe, eximindo-se de quaisquer responsabilidades. Aqui reside a sua face mais perversa, pois, nesse silêncio que autoriza, a violência se cristaliza, e passa a fazer parte da vida das pessoas. Muitos se acostumam com ela.
O trabalho de Sabrina produziu resultado que desvela um sistema criminoso, que produz vítimas perenes. Contudo, o preço que a mesma teve que pagar foi alto. Além de exilar-se para fora do país, precisou de exilar-se dentro de sua própria história, e aqui reside a parte mais deletéria da produção da uma violência, que se consubstancia em violação de Direitos Humanos, irreversível.
As marcas da violência não são passíveis de medição. Para cada um e cada uma chega de um jeito e produz efeitos únicos. Nenhuma reparação retornará ao status quo ante, o que precisa ser feito, é impedi-la com todas as forças e mecanismos. E aqui, não servem as utopias que consolam, mas as heterotopias que inquietam.
O legado da violência será sempre destrutivo, não podendo mais ser relativizado ou mascarado. As estratégias de cuidado e as retaguardas de apoio devem ser potencializadas.
Sabrina, em missiva que precedeu sua morte, deixara transbordar nas linhas e entrelinhas um roteiro para enfrentar violações. Deixou uma espécie de testamento da violência, e se desculpou por não ter conseguido seguir. Ao ler a Carta de Sabrina, lembrei-me da Carta de Olga, escrita às vésperas de sua execução na câmara de gás em Lichtenburg, Alemanha, onde escreve as derradeiras palavras: lutei pelo bom, pelo justo e pelo melhor do mundo. A Carta de Sabrina, escrita, talvez, durante seu percurso de dor, exorta ao mundo que aprenda a ser intolerante e intransigente com qualquer tipo de violência.
*A autora é advogada e mestranda da FDV