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Artigo de Opinião

Sucesso capixaba

Jeremias é exemplo de que não falta talento em território capixaba

De Roberto Carlos a Silva, há um corpo forte, alimentado e pronto para grandes histórias na música. Basta levantarmos a âncora e içarmos as velas

Publicado em 15 de Abril de 2019 às 17:21

Publicado em 

15 abr 2019 às 17:21
Jeremias Reis chega no Aeroporto de Vitória após vencer o The Voice Kids Crédito: Carlos Alberto Silva
Felipe Izar*
O assunto do momento no Espírito Santo (e não poderia ser outro) é a vitória de Jeremias Reis, de 12 anos, no The Voice Kids. Capixaba, o garoto fez bonito na Globo e sua história tomou conta das redes sociais no domingo (14). Um talento incrível, morador de um bairro de periferia, que alcançou um sonho e que merece ser homenageado. Mas é igualmente relevante avaliar a forma como o resultado de Jeremias tem sido comemorado no Estado.
Além da euforia demasiada nas redes sociais (normal, tudo bem), o governador Renato Casagrande, antes mesmo de acontecer a final do programa, já havia convidado o garoto para participar da orquestra da Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames). Além disso, veio à tona a já tradicional comparação que mostra mais um universo irregular do que, de fato, revela um momento de orgulho: “Já tivemos Roberto Carlos (entre outros) e agora temos o Jeremias”.
O cantor Roberto Carlos nasceu em Cachoeiro de Itapemirim Crédito: Reprodução/Instagram @robertocarlosoficial
Ora, o abismo cruel foi aberto. E me vêm algumas perguntas à cabeça: será mesmo prudente Jeremias pular tantas fases de sua vida e já ser a nova esperança capixaba para o tal do “dar certo”? Será mesmo que dar certo é ser famoso e ter dinheiro a partir da fama?
O episódio transparece, ao contrário do que deveria, uma falta de esperança melancólica nos cenários musical e cultural desenvolvidos no Espírito Santo, por parte dos músicos, das autoridades e do público.
Voltemos um pouco ao passado. No final dos anos 90 e início dos 2000, tivemos bandas que se consolidaram, como Casaca, Macucos, Manimal, Dead Fish, Java Roots, entre diversas outras, além de ter acontecido o histórico festival “Dia D”. É inacreditável, mas até hoje aquela geração de músicos e os fãs que compartilham do mesmo sentimento se perguntam o que deu errado, por que as bandas “não ficaram famosas no país” e trazem esse estigma à atualidade.
Banda Casaca Crédito: Divulgação
Acontece que ninguém nunca encontrou respostas para aqueles questionamentos, por uma razão muito simples: não houve erro algum. Foi um momento tão forte que a música capixaba ganhou o status de, veja só, “música capixaba” - e isso não é fácil: há esse tipo de relação com a venerada música mineira, por exemplo. Além disso, em qualquer grande festa no Espírito Santo o público canta todas aquelas canções a plenos pulmões.
O problema é que essa grandeza não foi assimilada e utilizada com o devido benefício que poderia. Como escreveu o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella: “Na vida, nós devemos ter raízes, e não âncoras. Raiz alimenta, âncora imobiliza”. Essa âncora, ou a incapacidade de reconhecer um momento importante, mas mudar e construir outro, é um dos fatores que leva o capixaba a valorizar desesperadamente episódios como o de Jeremias. E desespero, como também aponta Cortella, é desanimar, ou seja, perder a esperança.
Não há sentido para isso. Os meios para alcançar esse sonho sempre estiveram vivos em terras capixabas, como no episódio do “Dia D” relatado acima. Temos músicos novos, além do próprio Jeremias, e um pouco mais velhos do que o garoto, com nível técnico e de composições nos parâmetros nacional e internacional, em diversos estilos. O Silva, para se ter ideia, é o "queridinho" pop do momento no Brasil - e ele é capixaba, tem escritório de trabalho no Espírito Santo, a maior parte de sua equipe é formada por capixabas, e além disso ele toca e ensaia muitas vezes no Estado. É capixaba e ponto. E não há necessidade de manchete para reforçar isso.
O cantor Silva Crédito: Reprodução/Instagram @silva
Trocando em miúdos, a música no Espírito Santo não está entre Roberto Carlos e Jeremias. Há um corpo forte, alimentado e pronto para grandes histórias. O mesmo Cortella diz que “a esperança é a tentativa de procurar o melhor e não apenas o possível”.
Jeremias é um exemplo maravilhoso dessa reflexão e merece o estrelato do momento. Mas acostumem-se com a grandeza, capixabas, pois o “impossível” existe aos montes aqui. Basta levantarmos a âncora e içarmos as velas.
*O autor é jornalista e músico
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