
Thomas Traumann*
Cem dias depois de tomar posse, Jair Bolsonaro é um desapontamento. A aprovação do seu governo, segundo pesquisa do Datafolha, é a menor de qualquer presidente eleito e três de cada cinco brasileiros consideram que o presidente faz menos do que se esperava. Em uma descoberta inusitada, o Datafolha concluiu que o vice-presidente, Hamilton Mourão, tem rejeição menor que Bolsonaro e é mais bem avaliado por quem apoia o governo.
Faltando três anos e nove meses para o fim do mandato, a pergunta de US$ 2 trilhões (o equivalente ao PIB do Brasil) é “Bolsonaro pode mudar?”
A gestão Bolsonaro lembra o início das gestões de Jânio Quadros e de João Figueiredo. Eleito com a promessa de varrer a corrupção, Jânio variava entre o marketing e a ópera bufa. Em nome da moralidade, proibiu a realização de provas de turfe em dias úteis, as rinhas de briga de galo e os desfiles de misses com maiôs “cavados”.
Último general da ditadura, Figueiredo se orgulhava de ser tosco: “Prefiro o cheiro de cavalo à povo”; “Estou fazendo uma força desgraçada para ser político, mas o que eu gosto mesmo é de clarim e de quartel”. Inseguro, Figueiredo reuniu no governo ex-ministros dos governos Geisel e Médici, apenas para assistir uma guerra fraticida. Em cinco meses, Figueiredo deixou fritar o manda-chuva da economia, Mário Henrique Simonsen (ex-ministro de Geisel), e o substituiu por Delfim Netto (ex-Médici). Em dois anos e meio, a turma de Geisel abandonou o governo.
Jânio renunciou sete meses depois da posse, Figueiredo durou seis anos melancólicos. Não são exemplos alvissareiros.
Ironicamente, a melhor das hipóteses para o futuro de Bolsonaro é o do seu antípoda, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. O começo do primeiro governo Lula também foi confuso. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, colocou em postos chaves falcões ortodoxos como Henrique Meirelles e Joaquim Levy. Para frear a inflação, os juros subiram, o superávit primário tornou-se o maior da história e o aumento do salário mínimo foi zero.
A seu mérito, Lula aprumou o governo. Ignorou as pressões da esquerda, manteve Palocci e aprovou uma reforma da Previdência que limou privilégios dos novos servidores. O Fome Zero, que se revelou um fracasso gerencial, foi substituído com méritos pelo Bolsa-Família. O primeiro ano do governo Lula foi difícil, mas ter perseverado na ortodoxia permitiu a retomada da economia.
Traduzindo para 2019, seria como se Bolsonaro parasse de ser o presidente do confronto para ter uma relação congressual suficiente para aprovar as reformas da Previdência e tributária. Parece difícil enxergar Bolsonaro mudando, mas olhe para a transformação do vice Hamilton Mourão. Um ano atrás, ele falava abertamente em intervenção militar. Agora é aplaudido em Harvard por sua sensatez. A queda nas pesquisas e a metamorfose de Mourão deviam fazer Bolsonaro evitar o caminho de ser medíocre como Figueiredo ou breve como Jânio.
*O autor é jornalista, consultor político-econômico, pesquisador da FGV e autor do livro “O pior emprego do mundo”