
Luan Sperandio*
A Copa do Mundo de Futebol feminino deu visibilidade aos pedidos por maior valorização da modalidade. São comuns as comparações que expõem a diferença salarial com os atletas do masculino. Segundo a France Football, Lionel Messi ganha 325 vezes mais que Ada Hegerberg, a jogadora mais bem paga.
Embora já eleita melhor do mundo, você provavelmente nunca ouviu falar dela, o que já ajuda a explicar tamanha disparidade. As jogadoras ganham menos porque a modalidade gera menos receita do que a masculina em virtude do menor interesse do público.
A média de torcedores em um jogo do Lyon para ver Hegerberg é de pouco mais de dez mil pagantes, com ingressos custando 5 euros. A média de presentes no Camp Nou para ver Messi é quase oito vezes superior, com bilhetes entre 39 e 2.600 euros. Não à toa, o astro é o jogador que mais vende camisas no mundo. Ele gera muito mais valor, isto é, traz maior audiência, repercussão e exposição: é natural que seja melhor remunerado por seu clube e patrocinadores.
Tamanha discrepância reflete também o nível de profissionalização do futebol feminino: é como se fossem esportes distintos. Levantamento da Universidade de Manchester mostrou que metade das jogadoras do mundo não recebem salário para jogar, nem possuem contrato formal. Isso não apenas restringe a competitividade, mas impacta toda a modalidade.
Além disso, o futebol feminino teve menos tempo para desenvolver-se: os primeiros movimentos para profissionalização iniciaram-se no mundo apenas ao fim dos anos 1960. No Brasil, era proibido mulheres praticarem o esporte até 1979, ano da revogação da legislação discriminatória feita por Getúlio Vargas.
No passado, porém, a capacidade de gerar receitas do futebol masculino também era baixa em relação à atual. Levantamento de Rodrigo Capelo mostrou que, nas conversões de moeda, o salário de Garrincha no Botafogo seria inferior a R$ 3 mil por mês. Os valores aumentaram quando o mercado se desenvolveu, em especial a partir da entrada de receitas dos direitos de transmissão, que passaram a representar a principal fonte dos clubes a partir dos anos 1980.
O mesmo ocorrerá com o futebol feminino acaso haja desenvolvimento de seu mercado. Mas, para isso, como pediu Marta ao despedir-se do torneio, é preciso que o público valorize o esporte. Porém, isso ocorrerá com torcedores efetivamente lotando estádios, dando audiência aos campeonatos e consumindo produtos dos clubes e jogadoras, não com politizações e debates sobre discriminação da modalidade.
*O autor é graduando em Direito pela Ufes e editor do Instituto Mercado Popular