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É auditor fiscal e autor do livro infantil “Clic e o Sol que Brilha por Dentro”

Infância em modo avião: quanto mais tela, menos vida real

Brincar ao ar livre, passar tempo com amigos, ler e estar com a família podem perder espaço. Isso importa porque brincar e conversar são “treinos” intensivos de habilidades humanas

  • Thiago Duarte Venâncio É auditor fiscal e autor do livro infantil “Clic e o Sol que Brilha por Dentro”
Publicado em 18/03/2026 às 16h26

Em poucos anos, o smartphone virou parte da rotina de muitas crianças. Ele pode ajudar, entreter e aproximar pessoas, mas também disputa tempo e atenção com o que sustenta o desenvolvimento infantil: brincar, fazer amigos, dormir bem, ler, conversar e conviver em família. A questão não é demonizar a tecnologia. É lembrar que crianças e adolescentes ainda estão construindo autocontrole, rotina de sono e habilidades sociais. E o excesso tende a bagunçar esse processo.

Uma das primeiras trocas invisíveis é simples: quanto mais tela, menos vida real. Brincar ao ar livre, passar tempo com amigos, ler e estar com a família podem perder espaço. Isso importa porque brincar e conversar são “treinos” intensivos de habilidades humanas, como empatia, gentileza, linguagem, negociação de conflitos, frustração, amizade, pertencimento, autonomia.

Também não é só “falta de força de vontade”. Muitos aplicativos usam recursos para manter a pessoa conectada: notificações, rolagem infinita e recompensas rápidas. Para o cérebro em desenvolvimento, isso vira um atalho para aliviar tédio e ansiedade, e pode tornar mais difícil tolerar silêncio, espera e tarefas longas.

O sono costuma ser outro dominó: telas à noite estimulam o cérebro e empurram o horário de dormir. Com menos sono, aparecem irritação, mais conflitos, piora na atenção e queda de disposição. Na escola isso pesa, porque aprender exige foco sustentado, leitura com calma e raciocínio sem interrupções.

Além disso, há riscos específicos do ambiente digital: cyberbullying, comparação constante nas redes, exposição a conteúdos inadequados e abordagens perigosas. Nada disso se resolve só com proibição; é preciso limites claros, supervisão, conversa e exemplo dos adultos.

O smartphone e outros dispositivos eletrônicos não são vilões por si só, mas sem regras tendem a ocupar o lugar do que a criança mais precisa: sono, brincadeira, leitura e conexões humanas. Comece pequeno e firme: quartos sem telas à noite, refeições sem celular, horários protegidos (dever de casa e uma hora antes de dormir) e mais convites para o mundo real. No fim, a pergunta que ajuda a decidir é direta: a tecnologia está servindo à família? Ou a família está servindo à tecnologia?

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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