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Priscila Ceolin

Artigo de Opinião

É arquiteta e urbanista presidente do CAU/ES
Priscila Ceolin

Habitar a cidade é mais do que ter um teto

Quando parte da população vive em territórios precários, distantes ou sem infraestrutura, toda a cidade sente os efeitos dessa desigualdade
Priscila Ceolin
É arquiteta e urbanista presidente do CAU/ES

Publicado em 07 de Outubro de 2026 às 15:11

Publicado em 

07 out 2026 às 15:11

Falar sobre o Dia Mundial do Habitat é, antes de tudo, falar sobre o direito de viver com dignidade. Mais do que uma data no calendário, o 7 de outubro nos convida a olhar para as cidades e refletir sobre uma pergunta que deveria estar no centro de qualquer debate urbano: que tipo de cidade estamos construindo e para quem?


Em 2026, a Organização das Nações Unidas coloca em evidência o tema “Moradia adequada para todos”. A escolha não poderia ser mais necessária. Ter uma casa não significa apenas contar com quatro paredes. Moradia adequada envolve segurança, infraestrutura, acesso a serviços, mobilidade, qualidade ambiental e a possibilidade de viver em um território integrado à cidade.


Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo a Fundação João Pinheiro, o Brasil ainda apresentava, em 2024, um déficit habitacional estimado em 5,77 milhões de domicílios, o equivalente a 7,4% do total de domicílios particulares ocupados no país.

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Embora o indicador tenha recuado em relação ao ano anterior, a dimensão desse déficit mostra que garantir moradia adequada exige mais do que ampliar o número de unidades habitacionais: é preciso pensar onde essas moradias estão, como se conectam à infraestrutura, ao transporte, aos serviços e às oportunidades da cidade. 


A falta de acesso à habitação digna, no entanto, não se limita à ausência de um endereço adequado. Ela produz efeitos que se espalham por toda a sociedade, aprofundando desigualdades, dificultando o acesso à educação, ao trabalho, à saúde e aos serviços públicos e aumentando a exposição de famílias a situações de vulnerabilidade. 


Quando parte da população vive em territórios precários, distantes ou sem infraestrutura, toda a cidade sente os efeitos dessa desigualdade. Por isso, discutir habitação é também discutir oportunidades, qualidade de vida e o próprio desenvolvimento das cidades. 


No Brasil, esse debate ganha contornos ainda mais urgentes. As desigualdades urbanas estão presentes na forma como ocupamos o território, na distância entre moradia e trabalho, no acesso desigual a equipamentos públicos e na vulnerabilidade de comunidades diante de eventos climáticos. 


Quando uma parcela da população precisa morar em áreas sem infraestrutura ou sujeitas a riscos, não estamos diante apenas de um problema habitacional. Estamos diante de um desafio de planejamento urbano.


É nesse ponto que arquitetura e urbanismo precisam ser compreendidos como instrumentos de transformação social. Planejar uma cidade não é apenas desenhar ruas, edifícios e espaços públicos. 


É pensar em como as pessoas circulam, trabalham, convivem, acessam serviços e constroem suas vidas. É considerar as características de cada território e garantir que as decisões sobre seu futuro não deixem ninguém para trás.


O Espírito Santo, com suas diferentes realidades urbanas e territoriais, também precisa manter esse debate vivo. Mais do que ocupar novas áreas, é preciso qualificar os territórios existentes, aproximar moradia, trabalho e serviços, valorizar o patrimônio e criar condições para que os espaços se tornem cada vez mais um lugar de vida, convivência e pertencimento. 

Vista da Av Jerônimo Monteiro, no Centro de Vitória Marcelo Prest/Arquivo AG

Em Vitória, a requalificação do Centro, por exemplo, mostra como a recuperação de territórios já consolidados pode caminhar junto com a promoção da moradia. Projetos que transformam imóveis subutilizados ou abandonados em habitação, como o Morar no Centro e a requalificação do Edifício Jerônimo Monteiro, mostram que pensar a cidade também significa olhar para aquilo que já existe e devolver função social a espaços que fazem parte da sua história.


Também precisamos superar a ideia de que planejamento urbano é responsabilidade exclusiva do poder público ou de especialistas. A construção de cidades melhores depende de diálogo e participação. Arquitetos e urbanistas têm um papel fundamental nesse processo, mas as soluções precisam considerar o conhecimento e as necessidades de quem vive diariamente nos territórios.


O Dia Mundial do Habitat, portanto, é um convite para transformar o direito à cidade em compromisso. Uma cidade justa não é aquela que apenas cresce, mas aquela que oferece condições para que diferentes pessoas possam viver, circular, trabalhar e construir suas histórias com dignidade. 


Defender a moradia adequada é defender a própria ideia de cidade. E pensar no futuro do nosso habitat significa reconhecer que cada decisão sobre o território também é uma decisão sobre a vida das pessoas.

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