Falar sobre o Dia Mundial do Habitat é, antes de tudo, falar sobre o direito de viver com dignidade. Mais do que uma data no calendário, o 7 de outubro nos convida a olhar para as cidades e refletir sobre uma pergunta que deveria estar no centro de qualquer debate urbano: que tipo de cidade estamos construindo e para quem?
Em 2026, a Organização das Nações Unidas coloca em evidência o tema “Moradia adequada para todos”. A escolha não poderia ser mais necessária. Ter uma casa não significa apenas contar com quatro paredes. Moradia adequada envolve segurança, infraestrutura, acesso a serviços, mobilidade, qualidade ambiental e a possibilidade de viver em um território integrado à cidade.
Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo a Fundação João Pinheiro, o Brasil ainda apresentava, em 2024, um déficit habitacional estimado em 5,77 milhões de domicílios, o equivalente a 7,4% do total de domicílios particulares ocupados no país.
Veja Também
Pedro Sánchez convoca eleições antecipadas na Espanha após plano para enfrentar crise de moradia fracassar
Por que a Espanha, que construía casas demais, vive hoje uma grave crise de moradia
Crise de moradia na Espanha: reviravolta pode levar idosa de 87 anos de volta para casa após ser desalojada em Madri
Embora o indicador tenha recuado em relação ao ano anterior, a dimensão desse déficit mostra que garantir moradia adequada exige mais do que ampliar o número de unidades habitacionais: é preciso pensar onde essas moradias estão, como se conectam à infraestrutura, ao transporte, aos serviços e às oportunidades da cidade.
A falta de acesso à habitação digna, no entanto, não se limita à ausência de um endereço adequado. Ela produz efeitos que se espalham por toda a sociedade, aprofundando desigualdades, dificultando o acesso à educação, ao trabalho, à saúde e aos serviços públicos e aumentando a exposição de famílias a situações de vulnerabilidade.
Quando parte da população vive em territórios precários, distantes ou sem infraestrutura, toda a cidade sente os efeitos dessa desigualdade. Por isso, discutir habitação é também discutir oportunidades, qualidade de vida e o próprio desenvolvimento das cidades.
No Brasil, esse debate ganha contornos ainda mais urgentes. As desigualdades urbanas estão presentes na forma como ocupamos o território, na distância entre moradia e trabalho, no acesso desigual a equipamentos públicos e na vulnerabilidade de comunidades diante de eventos climáticos.
Quando uma parcela da população precisa morar em áreas sem infraestrutura ou sujeitas a riscos, não estamos diante apenas de um problema habitacional. Estamos diante de um desafio de planejamento urbano.
É nesse ponto que arquitetura e urbanismo precisam ser compreendidos como instrumentos de transformação social. Planejar uma cidade não é apenas desenhar ruas, edifícios e espaços públicos.
É pensar em como as pessoas circulam, trabalham, convivem, acessam serviços e constroem suas vidas. É considerar as características de cada território e garantir que as decisões sobre seu futuro não deixem ninguém para trás.
O Espírito Santo, com suas diferentes realidades urbanas e territoriais, também precisa manter esse debate vivo. Mais do que ocupar novas áreas, é preciso qualificar os territórios existentes, aproximar moradia, trabalho e serviços, valorizar o patrimônio e criar condições para que os espaços se tornem cada vez mais um lugar de vida, convivência e pertencimento.
Em Vitória, a requalificação do Centro, por exemplo, mostra como a recuperação de territórios já consolidados pode caminhar junto com a promoção da moradia. Projetos que transformam imóveis subutilizados ou abandonados em habitação, como o Morar no Centro e a requalificação do Edifício Jerônimo Monteiro, mostram que pensar a cidade também significa olhar para aquilo que já existe e devolver função social a espaços que fazem parte da sua história.
Também precisamos superar a ideia de que planejamento urbano é responsabilidade exclusiva do poder público ou de especialistas. A construção de cidades melhores depende de diálogo e participação. Arquitetos e urbanistas têm um papel fundamental nesse processo, mas as soluções precisam considerar o conhecimento e as necessidades de quem vive diariamente nos territórios.
O Dia Mundial do Habitat, portanto, é um convite para transformar o direito à cidade em compromisso. Uma cidade justa não é aquela que apenas cresce, mas aquela que oferece condições para que diferentes pessoas possam viver, circular, trabalhar e construir suas histórias com dignidade.
Defender a moradia adequada é defender a própria ideia de cidade. E pensar no futuro do nosso habitat significa reconhecer que cada decisão sobre o território também é uma decisão sobre a vida das pessoas.