
Antonio Marcus Machado*
Nosso país, o Brasil, não é Corinto, mas faz lembrar a figura de Sísifo e sua eterna punição. Ele foi criador e governante dessa notória cidade e usou sua incontestável astúcia para enfrentar os deuses, principalmente o temido Zeus.
Vencido, Sísifo recebeu de Hermes uma punição eterna: levar, rolando, uma pesada pedra de mármore ao cume de uma montanha; porém, uma força adversa e incontrolável, tão logo ele se aproximava do ápice da montanha, depois de muito esforço, fazia a pedra rolar morro abaixo obrigando-o a recomeçar do ponto de partida.
Ficava a lição de que os comuns não podem desafiar os deuses. No mundo contemporâneo, muitas vezes um trabalho exaustivo, repetitivo e longo, torna-se um “trabalho de Sísifo”. Algo que tende ao fracasso. Como se fosse uma punição.
O Brasil já teve inúmeros Sísifos. Alguns mais esforçados e determinados que outros, mas nenhum deles chegou ao cume da montanha, qual seja, a reorganização da sociedade, da economia e do ambiente legal de nosso país. No início, tudo parecia fácil. A montanha não parecia tão alta assim e nem a pedra tão pesada. Longe de ser uma punição, o trabalho se revestia com aura de um heroísmo não messiânico, mas intenso e vaidoso. A coroação do individualismo. Um hedonismo Benthamniano.
E assim rolaram morro acima pedras como os planos econômicos, as reformas constitucionais, as políticas sociais e tantas outras iniciativas de se alcançar o topo da montanha. E todas tiveram o mesmo fim, deixando um trabalho inconcluso: rolaram morro abaixo, estacionando em seu próprio ponto de partida.
Muitos deuses do Olimpo foram desafiados. Aeacus, da honestidade, por diversas vezes; e Ares, da agressividade, várias vezes. Atena, deusa da sabedoria, incontáveis vezes. E suas punições, no limiar superior de seus graus de paciência, inundaram nossa história com Sísifos, que se sucederam ano após ano. Caso não haja uma mudança urgente do curso dessa história contemporânea, novamente registraremos mais um “esforço de Sísifo”, um trabalho indispensável, porém inconcluso.
Mas, ao contrário da lenda, não é fazer uma pedra alcançar o cume de uma montanha. A questão, em verdade, é levá-la da escuridão de um abismo profundo até as margens de uma planície próspera, justa e iluminada. O governo Bolsonaro trouxe essa expectativa, como um novo alento. Infelizmente, alguns deuses parecem estar sendo novamente desafiados, desrespeitados e confrontados. E quando isso acontece a cólera dos deuses transforma sonhos e esperanças em frustrações, resignações e desesperança.
*O autor é economista e professor universitário