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A Gazeta

Artigo de Opinião

Capitalismo

Globalização acentua o efeito bumerangue das desigualdades

Sem produtividade, não há crescimento sustentável. Com desigualdades, os mercados definham
A Gazeta

Publicado em 09 de Março de 2019 às 01:31

Publicado em 

09 mar 2019 às 01:31
Desigualdade social acentuada pelo capitalismo e a globalização
Antônio Carlos de Medeiros*
O mundo vive uma combinação tóxica. Tem queda de crescimento econômico e aumento das desigualdades. Tudo conjugado com sinais de colapso ecológico. A China está incluída. O Brasil também. As economias centrais, idem. São sintomas de uma forma predatória de capitalismo monopolista. Sem competição, não há capitalismo.
O efeito bumerangue desta realidade está chegando. A globalização beneficiou muitos segmentos. Mas há sinais crescentes de desigualdades entre e dentro das sociedades. Hoje, o 1% mais rico é dono de 50% da riqueza do mundo. Já o colapso ecológico desestabiliza a biosfera e muda a composição do solo, da água e da atmosfera. Com mudanças climáticas severas.
Os capitalistas preferem monopólios. Só o Estado pode restaurar a competição. Os monopólios diminuem a produtividade e aumentam as desigualdades. Sem produtividade, não há crescimento sustentável. Com desigualdades, os mercados de consumo de bens e serviços definham.
Restaurar a competição é voltar às raízes e à essência do capitalismo: preços competitivos; eficiência; inovação; poder de compra do consumidor; crescimento. Os monopólios e oligopólios estão em todos os setores. O “big business” não é intrinsecamente ruim. Mas o tamanho/monopólio tem vindo de fusões que destroem a competição. Reformas são necessárias, através da legislação antitruste; da regulação; das normas de patentes; e da pulverização do controle acionário, por exemplo.
As reformas do capitalismo estão incluindo, também, a percepção da nova realidade econômica do mundo das gerações dos millennials e dos “Z”. Trata-se da economia da qualidade de vida, mais do que a economia do consumo. O padrão de consumo da classe média americana na segunda metade do século XX não é mais referência. Num mundo superpovoado, que ameaça o equilíbrio ecológico, a qualidade de vida vai se tornar medida de composição do PIB dos países.
Isso incorpora ao processo de desenvolvimento – tanto nos países centrais, quanto nos de renda média como o Brasil – as agendas da economia verde; da economia digital; da economia do bem-estar; e da ampliação ao acesso à saúde, segurança; educação e mobilidade. Um novo padrão de bem-estar. Com outro tipo de padrão de consumo: entretenimento; vida saudável; cultura; lazer; conectividade. Ter uma ética do trabalho, sim. Mas ter também uma ética do bem-estar; do saber; do conhecer; do conectar; e do lazer.
A geração Z, nascida no século XXI, representará 32% da população mundial agora em 2019. A geração dos millennials, nascida entre 1981 e 1996, já representa mais 31,5%. São 63,5% da população mundial. As duas são cada vez mais relevantes, com novas formas de pensar e agir e novos modelos de “progresso”. O mercado são elas. O capitalismo precisa mirar nelas.
*O autor é pós-doutor em ciência política pela The London School of Economics and Political Science
 
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