Gustavo Tenório*
O pintor espanhol Francisco Goya, em "O Sono da Razão produz monstros", reproduziu em uma de suas mais belas manifestações artísticas uma crítica feroz à ignorância vigente na Espanha e na Europa. Duzentos e vinte anos depois da criação dessa obra única, a provocação de Goya permanece: é possível convencer as pessoas de praticamente tudo.
Em tempos de fake news, o julgamento de um crime em Guarapari, em que dois assassinos, réus confessos de um triplo homicídio com motivação torpe, em que as vítimas não tiveram direito à defesa, também se tornou o retorno do tormento para inúmeros jogadores de RPG. De acordo com a alegação apresentada pela dupla, toda a trama letal teria acontecido durante uma partida do jogo.
No imaginário coletivo, todo jogador de RPG é um cultista e homicida em potencial. Isso acontece por conta do Caso de Ouro Preto, no qual, por inúmeros equívocos policiais e judiciais, a morte de uma jovem em 2000, na cidade mineira de mesmo nome, foi atribuída ao encerramento do jogo, onde quem é derrotado paga com a vida.
Nos dois casos citados acima, apenas uma certeza: o RPG não teve nenhuma relação com as mortes. Criminosos frios, dissimulados, que tiveram tempo para planejar e arquitetar atos de barbárie, colocaram em xeque uma das atividades lúdicas mais divertidas já inventadas. Os RPGs são uma evolução dos jogos de tabuleiros e nada mais representam do que uma forma teatral de interpretar papéis para um público limitado e com poucos recursos.
Sem uma definição de idade (serve para participantes de 8 a 80 anos), sem obrigação de acontecer em um local pré-determinado, de custo baixo e com incentivos comprovados ao estímulo da imaginação e desenvolvimento da concentração, os RPGs tem sido adotados por inúmeros professores como ferramentas de complemento ao aprendizado de disciplinas em todo o Brasil.
Inúmeras editoras nacionais estão investindo no gênero, gerando novos postos de trabalho, emprego e renda para escritores e artistas. Encontros regulares, realizados em shoppings e grande centros, servem como fomentadores de novos públicos leitores e possibilitam a criação de novas amizades, em tempos onde a maior diversão é ficar em casa, na frente da tela de uma TV ou computador.
Sinceramente espero que os dois assassinos de Guarapari peguem a pena máxima e que, desta vez, durante o julgamento, fique claro que o jogo de RPG nunca foi o motivador para o crime bárbaro. Antes de acreditar que um jogo pode transformar alguém em homicida, busque informação. A crítica de Goya, retratada em um quadro, nunca esteve tão atual.
* O autor é jornalista e jogador de RPG há mais de 30 anos