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Artigo de Opinião

Gênero e religião

Discursos religiosos oportunistas junto com política oprimem direitos

Vejo com preocupação e desalento o avanço vigoroso do fundamentalismo religioso em nosso país e no mundo

Publicado em 09 de Março de 2019 às 02:17

Publicado em 

09 mar 2019 às 02:17

Religião e Política

Elda Bussinguer*

Tenho visto, com preocupação e desalento, o avanço vigoroso do fundamentalismo religioso em nosso país e no mundo. O conservadorismo, moralista, acrítico e que se sustenta em uma pretensa ética cristã, tem se consolidado pela manipulação de textos religiosos, intencionalmente direcionados a manutenção dos privilégios e estruturas de poder que sustentam as instituições religiosas. Retrocessos que se agigantam, solapando direitos e tolerando que mulheres continuem a ter seus corpos violados e violentados e seu emocional destruído por sentimentos de inferioridade, desesperança e impotência.

A títulos da verdade, é necessário registrar que, os retrocessos não podem ser computados, exclusivamente, às denominações pentecostais. Igrejas cristãs tradicionais, católicas ou reformadas, que sempre gozaram de credibilidade, justificada pela adoção de uma fé racional e reflexiva, com desprezo às que denominavam de seitas, em razão de uma suposta ausência de corpo doutrinário sólido e consistente, compartilham hoje dos mesmos processos hermenêuticos, direcionados por um viés moralista, de baixo conteúdo doutrinário e racional.

Discursos religiosos oportunistas, misturados com interesses políticos, podem ser encontrados em todos os púlpitos, sejam eles proferidos por líderes com interesses econômicos, sejam replicados por fiéis ingênuos, que sem qualquer poder na estrutura social almejam manter seus privilégios no ambiente doméstico, controlando os corpos das mulheres, para que lhes sirvam, submissas.

As mudanças não virão tão somente pela ocupação de cargos nas estruturas do poder estatal ou empresarial, mas na compreensão do fundamentalismo religioso, que distorce o verdadeiro cristianismo, libertador em essência - “já não há mais escravos ou livre, homem ou mulher...” - e que tenta implantar um cristianismo opressor que inviabiliza, retira direitos, violenta e mata as mulheres.

Sepulcros caiados que sobre o discurso de preservação da família induzem as mulheres a não denunciarem maridos violentos, que as oprimem e humilham, mitigando-lhes a dignidade, anunciada de forma tão singela pelo evangelho. O desprezo às mulheres e seus direitos deveria ser rejeitado como exercício da genuína fé cristã.

Enquanto a igreja católica se contorce à retirada do véu que encobria os casos de pedofilia, tolerados e acobertados pelo poder eclesiástico, as igrejas evangélicas precisam dar conta das estatísticas que apontam que 40% das vítimas de violência são mulheres evangélicas.

Não me parece haver muito a comemorar neste mês de março.

*A autora é doutora em Bioética e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

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