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Artigo de Opinião

Política

Discursos religiosos e anticientíficos levam o homem à caverna

Retroceder a roda da história em busca de passados idílicos nos legam fenômenos como nazismo e populismos

Publicado em 10 de Junho de 2019 às 23:34

Publicado em 

10 jun 2019 às 23:34

Política e Religião

Eliomar Mazoco*

O pensamento humanista no ocidente surgiu na Grécia Antiga, onde os filósofos buscaram explicações racionais para o mundo sem ter por base a religião e a superstição. Sócrates baseava suas ideias nos problemas humanos, e na razão humana a capacidade de distinguir o certo do errado. Mas o pensamento religioso e o poder eram intolerantes com o pensar livre. Sócrates, que não era antirreligioso, foi condenado à morte acusado de corromper a juventude, por criticar os deuses.

O pensamento humanista será a base do desenvolvimento do mundo Helênico, que sempre conviveu com relativa harmonia com o pensamento religioso. Apesar da plêiade de deuses que adoravam, sabiam seus líderes e filósofos, dos estoicos ao imperador Adriano e ao filósofo imperador Marco Antônio, separar as esferas do divino e do humano.

Mas a intolerância se fará presente na história. Seja com a cristianização do império romano por Constantino e a perseguição a quem desafiasse o estado e sua religião oficial, seja mais tarde na invasão do império pelas tribos bárbaras, cuja intolerância religiosa dos seus deuses pagãos era correspondida pela igreja católica apostólica romana, que mantinha um poder temporal nos estados papais, até o surgir da nova religião oriental, onde estado e sociedade eram controlados pela Sharia, o conjunto de leis baseadas no Alcorão.

 

Todo este período de trevas é marcado pela quase extinção do pensamento humanista e da razão, mas principalmente pelo embate mortal entre as religiões, cujo principal símbolo será as cruzadas contra o islamismo.

Este período terá seu fim com a volta do pensamento humanista no Renascimento, no qual a razão e o primado do “homem como medida de todas as coisas” revolucionam as artes, a política, a administração pública e mesmo a religião, pois não era um movimento anticlerical, mas, sobretudo filosófico. E mais uma vez o humanismo, apesar da intolerância das religiões monoteístas, será responsável pelo desenvolvimento da sociedade ocidental, principalmente depois da invenção da imprensa, com o avanço do pensamento científico e da razão, como caminho da busca da verdade.

Razão que esta na base do conceito iluminista de justiça. A justiça que era exclusiva dos reis “escolhidos por Deus” e não passava de vingança contra os que pecavam - graças a iluministas como Voltaire, doravante será a punição contra o crime dos homens e instância de poder, que assim como a gestão pública e as leis, na universal formulação de Montesquieu, deviam ser poderes independentes guiados pela razão.

Por todo este progresso milenar do humanismo, da razão e da ciência é que assusta aos espíritos livres, discursos religiosos e anticientíficos que buscam levar os homens de volta à caverna, onde só enxergamos a sombra e não a verdade dos fatos, milhares de anos depois que de lá nos tiraram Platão e os pensadores humanistas.

Discursos que veem em Savonarolas restauradores de costumes e tradições novos messias salvadores, que creem que autoridades são pessoas enviadas por deus que não devem ser questionadas, que combatem a ciência e questionam até a esfericidade da terra, tema que custou a vida de Giordano Bruno e quase a de Galileu Galilei.

Como alerta Luiz Werneck Viana, tentativas de girar a roda da história para trás, em busca de passados idílicos que nunca existiram, surgem sempre que o velho morre e o novo não nasce, nos legando fenômenos como o nazismo, o fascismo e os populismos de lideranças messiânicas, anti-weberianas.

Nestes momentos em que almas radicalizadas pugnam por um retrocesso civilizatório “defendendo um deus que age na história” nos consola as palavras do Papa Francisco que quer uma igreja livre “daqueles que querem envelhecê-la, ancorá-la ao passado, travá-la, torná-la imóvel”, pois são os homens que fazem e movem a história.

*O autor é historiador, especialista em Políticas Públicas e membro do IHGES

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