Jose Luis Bolzan de Morais*
25 janeiro de 2019. Sexta-feira. Hora do almoço – pelo menos para boa parte dos brasileiros – à exceção daqueles que, de tão excluídos, sequer podem ser “dar ao luxo” de, ainda, almoçarem. Trabalhadores da Vale no refeitório da empresa. Ao redor desta, turistas, moradores da região, fauna, flora e águas. De repente, sem prévio aviso – afinal, instrumentos instalados pela mineradora que deveriam dar o alerta aparentemente não funcionaram -, mais uma barragem da empresa se rompe e leva tudo e todos, impiedosamente.
Logo, as notícias circulam e todos assistem “bestializados” – para lembrar a expressão do título de livro de José Murilo de Carvalho – a repetição maximizada, em termos de vidas perdidas – pelo que se informa até agora -, daquilo que muitos já denunciavam.
Desde então, estupefatos, autoridades – de todas as áreas e diversos matizes – vêm a público para externar suas solidariedades, seu empenho, seus esforços etc.
Os gestores da gigante da mineração apressam-se, agora, para noticiar que medidas serão tomadas, até mesmo para além das exigências legais - estas, até então, olimpicamente relegadas a segunda plano pela empresa - e, ao que parece, pelos responsáveis pela fiscalização e controle das atividades de mineração.
Até mesmo os grandes atores dos órgãos de garantia, com o Ministério Público à frente, tomam, furiosamente, atitudes “radicais”, embora se saiba que, até hoje, desde Fundão/Mariana, em 2015, quase nada tenha se obtido de concreto em face das práticas desta e de outras mineradoras.
A empresa também chegou a anunciar que irá fazer uma “doação” às famílias que têm algum membro entre os desaparecidos na tragédia.
Por outro lado, o mercado financeiro reagiu. Na segunda-feira seguinte ao desastre, as ações da empresa despencaram. Rapidamente, os gestores reagiram e anunciaram um plano de “descomissionamento” das barragens do mesmo tipo – em torno de dez, como afirmaram em entrevista - existentes no Estado de Minas Gerais. Dias depois, o mercado parece ter se acalmado, e as ações da Vale voltaram a subir, tal qual no pós-Mariana.
Para além dos corpos enterrados na lama e dos “não-ditos”, o que se tem é a velha máxima do que Avelãs Nunes – grande professor português – nomeou “capitalismo de cassino”, em face do qual o Estado de Direito e suas instituições se esvanecem.
As apostas foram feitas. Só quem saiu perdendo foram as famílias que sofrem as perdas de entes queridos; o meio ambiente; e a sociedade mineira e brasileira, que irão pagar a conta dessa nova tragédia.
Afinal, a Vale é “to big to fail”.
*O autor é professor do programa de pós-graduação stricto sensu da FDV e pesquisador