Diego Starley Costa de Alomba*
Em semana de ano novo, as cores estão sempre em voga: muito se fala sobre os significados que as roupas coloridas podem ter na noite da virada de ano e as energias que elas representam. Ao amanhecer do dia 1º de janeiro, contudo, esse assunto adormece e só volta a despertar às vésperas do próximo ano. Assim é tradicionalmente.
Mas este ano, o assunto não dormiu. Já no dia 2 de janeiro, logo após tomar posse no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, a ministra Damares Alves anunciou em um vídeo que o Brasil está em uma nova era, na qual “menino veste azul e menina veste rosa”. E foi assim que as cores das roupas voltaram a ser assunto... Muito assunto, aliás!
Com um pouco de boa vontade interpretativa é possível entender que a nova ministra falou de modo figurado sobre aquilo que parcela da sociedade, inclusive o presidente eleito, chama de “ideologia de gênero”. Contudo, não é possível ignorar que a abordagem do delicado assunto foi feita de modo muito infeliz, sobretudo por se tratar da fala da ministra de um Estado plural como o Brasil.
É simplista demais limitar as pessoas às cores de suas roupas. E isto vale para todos os assuntos.
Em 2018, o brasileiro acostumou-se, por exemplo, a dividir as pessoas entre aquelas que usavam roupas vermelhas e aquelas que usavam roupas com as cores do Brasil – muitas vezes usando isto como uma medida de caráter. O próprio presidente Jair Bolsonaro, inclusive, ao tomar posse, fez referência às cores e disse que a bandeira do Brasil jamais será vermelha.
Verdade que são simbolismos. Mas em um país carente de educação (não apenas escolar) e cada vez mais intolerante e violento, simbolismos podem ser muito perigosos.
Assim como a cor da pele não define o caráter de ninguém, as cores de nossas roupas também não podem ser usadas para definir quem somos ou o que pensamos. Homens podem vestir rosa e mulheres vestir azul, assim como pessoas desonestas podem usar verde e amarelo e pessoas honestas usar vermelho (e vice-versa).
As pessoas são tão plurais que as sete cores do arco-íris não são suficientes, precisam misturar-se para dar conta de colorir toda a vastidão de nossa existência. Que 2019 seja o ano de todas as pessoas (e de todas as roupas e cores).
*O autor é técnico judiciário na Justiça Federal-ES