Quem já não ouviu esta frase quase inocente: “Fulano é 100% capixaba”? Se fizermos uma análise bakhtiniana, veremos que alguns empregos dessa expressão não são para valorizar uma naturalidade (local de nascimento), mas sim para exaltar um preconceito velado, como se “quem vem de fora” fosse gente ruim.
Ao seguir a lógica desse pensamento, muitos subestimam o fato de que o Espírito Santo, assim como os demais estados da federação, abriga uma população oriunda de diversas regiões, que mora e contribui para seu desenvolvimento. Afinal, existem capixabas baianos, maranhenses, cariocas, paulistas, gaúchos, etc. Eles são inferiores por não serem capixabas natos?
Por essa razão, podemos citar Bakhtin, referência em linguística, que dizia o seguinte: “As palavras do outro, introduzidas na nossa fala, são revestidas inevitavelmente de algo novo, da nossa compreensão e da nossa avaliação, isto é, tornam-se bifocais". Daí, o perigo de aceitarmos certas “falas” como normais.
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Diante disso, toda vez que vejo técnica de manipulação em discurso, lembro-me da construção narrativa que a equipe de Hitler fez contra os judeus no século XX. O plano principal era exterminar todos de origem judaica da Europa, porém, para isso acontecer, a alegação antissemita foi utilizada até o ponto do Terceiro Reich agir com o consentimento de muitos dos “100% europeus”, pois foi normatizado através de uma metodologia empregada que o povo hebreu significava um perigo, um “povo inferior”.
Só para exemplificar uma das metodologias empregadas pela propaganda nazista, encabeçada pelo ministro Joseph Goebbels, era a de “minar” a integridade, espalhando no meio da população que os judeus eram disseminadores de doenças. Por conseguinte, Goebbels foi chamado de o “arquiteto do nazismo”, por conhecer e dominar técnicas de convencimento, ele sabia mobilizar massas, pois tinha domínio dos discursos e conhecia os impactos que certas palavras faziam nas mentes humanas.
Em função disso, por esse fato ter marcado a história da humanidade, reitero que o uso de certos discursos é mais que preocupante em pleno século XXI, é uma decadência! Outro exemplo, porém atual, que observamos, principalmente, no período eleitoral brasileiro, é quando um político tenta desqualificar o outro atacando sua origem, trazendo à tona uma velha forma de se fazer política, querendo consolidar uma xenofobia regional ao invés de rechaçar esse tipo de preconceito. Por que não discutir no âmbito dos assuntos públicos: caráter, qualificação, projetos, produtividade em prol da sociedade?
E para finalizar, sim, é importante valorizarmos o estado onde vivemos e tudo aquilo que é positivo produzido regionalmente, no entanto, esse “orgulho” precisa ser mais relevante do que ser utilizado como retórica preconceituosa.