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Artigo de Opinião

Brunela Vieira de Vincenzi

Crise na Venezuela deve ser resolvida pela via diplomática

Construção de uma paz duradoura no país deve ser mediada por valores de participação democrática

Publicado em 01 de Maio de 2019 às 20:38

Publicado em 

01 mai 2019 às 20:38
Não se nega o avanço redistributivo da primeira década e meia do governo Chávez, porém, não se nega, também, que o modelo chavista esgotou-se Crédito: Reprodução/Web

Brunela Vieira de Vincenzi*

Poucas pessoas se lembram, mas a Venezuela é o único país da América do Sul que não sofreu com as ditaduras militares que dominaram o continente nas décadas de 60 e 70 do século passado. Tradicionalmente, a Venezuela sempre foi o país de acolhida democrática a refugiados e asilados políticos nas Américas. Foi somente na década de 1990, quando a situação política já se estabilizara nos demais países sul-americanos, que se vê a inversão de papéis no continente, com a chegada de Chávez ao poder e a promulgação da nova Constituição venezuelana, por meio de um referendo popular, em 1999.

Todos nos lembramos do famoso Comandante Hugo Chávez, que tomou para si a continuação da tarefa do grande líder da descolonização na América Latina, Simón Bolívar, instaurando um regime inovador no continente, ao qual chamou de Revolução Bolivariana: uma espécie de ideário social-democrata de Salvador Allende, do Chile pré-Pinochet, combinado com o pragmatismo democrático do primeiro governo do ex-presidente Lula no Brasil.

O que poucos querem lembrar é que, de fato, com a assunção do poder pelo Comandante, houve grande redução da pobreza, do analfabetismo e da mortalidade infantil na Venezuela, o que se deu por uma melhor e mais coordenada divisão de rendas no país. Essa redistribuição dos dividendos do petróleo, em última análise, fez com que camadas da população que até então não tinham acesso à educação, à saúde e aos meios de produção, pudessem participar mais ativamente da vida cotidiana política e econômica. Todavia, a partir da crise financeira que atingiu gradualmente todo sistema financeiro mundial, com a quebra do Banco Lehmann Brothers em 2008, os lucros obtidos com a venda do petróleo não mais eram suficientes para a manutenção das políticas de redistribuição de renda.

O resultado começa a ver-se com a guinada autoritária do líder que substitui Chávez na presidência do país, seu sucessor Nicolás Maduro, a partir de 2015, quando o seu partido perde as eleições parlamentares para a oposição. A forma como o governo passou a lidar com a oposição, com o Parlamento e o Poder Judiciário – garantidores do Estado democrático de Direito – já adianta os sinais que se veem hoje nas ruas de Caracas. Mais ainda: já em abril de 2018 uma série de intelectuais franceses começa a chamar atenção da comunidade internacional para a ruptura da democracia, violação de direitos humanos e escassez de itens básicos na Venezuela, por meio da publicação Le Temps Modernes.

Desde então, o Brasil e a Colômbia passaram a receber grandes influxos de cidadãos venezuelanos em busca de refúgio, asilo político e visto humanitário, fugindo da agressividade e destruição da condição humana que se deu pela escassez de comida, remédio, energia e, claro, também, de democracia.

Não se nega o avanço redistributivo da primeira década e meia do governo Chávez, porém, não se nega, também, que desde a crise financeira mundial e a queda do preço internacional do petróleo a viabilidade do modelo chavista esgotou-se sem perspectiva pacífica de transição para a democracia. Necessário, agora, seria a maior participação diplomática dos países americanos, sem ameaças bélicas ou intervencionistas, para a construção de uma paz duradoura no país, mediada por valores de participação democrática entre governo, oposição e cidadãos residentes e não residentes na Venezuela.

*A autora é titular da Cátedra Sérgio Vieira de Mello do ACNUR/ONU na Ufes

 

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