
Antônio Carlos de Medeiros*
A História tem demonstrado que a cultura de uma sociedade é fundamental para o processo de criação de riquezas. Há um nexo causal entre cultura e desenvolvimento. A questão cultural tem a ver com a maneira pela qual os cidadãos de um país, ou região, confiam nos outros cidadãos deste mesmo país, ou região. É a confiança que leva os agentes econômicos a adotarem - ou não - formas de cooperação e associação para a produção social de riqueza.
No Brasil, este grau de confiança é muito baixo. Na década de 1990, uma pesquisa em vários países mostrava que, no Brasil, apenas 3% dos pesquisados responderam que se podia confiar nas pessoas no país – contra, por exemplo, 65% na Noruega. A última medição do Instituto Latinobarômetro, em 2018, mostra que só 7% dos brasileiros acreditam nos outros.
Sem confiança, não há cultura de cooperação e associação. No comportamento dos indivíduos, quatro atributos contribuem para construir uma cultura de cooperação: (1) uma ética do trabalho duro e da responsabilidade; (2) um comportamento voltado para a cooperação e para a “propensão à reciprocidade” (cooperarmos com os outros e punir aqueles que violam as normas de cooperação e convivência); (3) uma mentalidade voltada para a inovação; (4) uma ética de olhar para o futuro, de poupar para o futuro, de ter projeto de construção de futuro.
Estes atributos conformam uma cultura de confiança no outro e de cooperação com o outro, levando à prosperidade. A consequência é a formação, na sociedade, da propensão à conectividade e associação entre indivíduos. Trata-se do chamado “capital social” de uma nação ou região – uma cultura de associação e cooperação.
As pesquisas mostram que há um forte nexo causal entre capital social e desempenho econômico. Um exemplo claro disto é a diferença entre as regiões Norte e Sul da Itália. Enquanto o Norte da Itália produziu um estoque de capital social, e alcançou um ciclo virtuoso de desenvolvimento, o Sul permaneceu mais pobre e assentado numa cultura de hierarquia e atomização social.
Terão o Brasil e o Espírito Santo condições histórico-sociais de formar, no horizonte de uma geração, um “estoque” de capital social? A resposta pode ser: depende de um projeto de educação e estímulo ao empreendedorismo e à livre iniciativa. Educação combinando estímulos cognitivos e socioemocionais; autonomia; envolvimento e responsabilidade; atrelamento emocional às coisas, fatos e conexões do cotidiano; práticas de monitoramento das trajetórias de vida. São os embriões do estoque de capital social.
Estaremos preparados para o próximo ciclo de desenvolvimento nacional e regional, que deverá ter forte viés liberal, descentralizador, não estatal e não patrimonialista? Teremos capital social e livre iniciativa?
*O autor é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science